Rogério Ceni: 46 anos, 46 histórias do brasileiro que mais disputou jogos na Libertadores

Bicampeão da América com o São Paulo, o maior goleiro-artilheiro do futebol mundial e agora treinador faz aniversário nesta terça-feira (22)

1 - Rogério Ceni nasceu em 22 de janeiro de 1973. Paranaense de Pato Branco, morou também em Curitiba e cresceu em Sinop, no Mato Grosso. Era o caçula dos quatro filhos da família, que lhe deu o apelido de Kiko. O pai conta que Rogério foi temporão, ou seja, não estava planejado. Em entrevista ao programa "Esporte Espetacular", da TV Globo, em 2011, Eurydes Ceni revelou que a gravidez foi considerada arriscada pelo médico que acompanhou a mãe, Hertha, e que ele teria até aconselhado o casal a praticar um aborto.

Rogério Ceni infância

2 - Apesar da identificação com o São Paulo adquirida como jogador, Rogério Ceni torcia para outro clube na infância: o Internacional, por influência do pai, gaúcho da cidade de Erechim. Um dos sonhos de Eurydes, aliás, é ver o filho treinando o Colorado. "Espero estar vivo se um dia isso acontecer", disse ao jornal "Zero Hora", em 2017.

3 - Na escola, além do futebol, Ceni se destacava no vôlei. Amigos de infância, aliás, apostavam que ele seguiria carreira nas quadras. Antes de se tornar o maior goleiro-artilheiro do futebol mundial, Rogério chegou a ser convocado para a seleção mato-grossense de vôlei. Ele também pratica tênis.

4 - Rogério dividia tempo entre o colégio e alguns afazeres na fazenda da família. Na adolescência, trabalhou como office boy em uma agência do Banco do Brasil em Sinop. Seguir empregado no banco, aliás, foi a condição para que o pai o autorizasse a tentar a sorte no futebol.

5 - O emprego lhe deu a oportunidade de defender o time de futebol amador da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB). Então jogador de linha, Ceni disputou uma partida como goleiro após o titular da posição sofrer uma lesão. Ele se destacou e tomou gosto por defender a meta. O paí de Rogério também havia sido goleiro na juventude.  

Rogério Ceni Sinop

6 - Em 1989, aos 16 anos, Ceni ingressou no Sinop, o time da cidade. Era o terceiro goleiro, até que, no Campeonato Mato-Grossense de 1990, teve a primeira chance como titular. Na estreia, defendeu um pênalti contra o Cáceres. Em seguida, se sagraria campeão estadual. "Eu gostava de futebol, mas não tinha definido uma posição. Por isso, posso até dizer que foi uma escolha tardia (ser goleiro), porque eu já tinha 16 anos de idade. Fiz um teste no Sinop e passei. Em 1990, fomos campeões e, depois, fiz um teste no São Paulo."  

7 - Ceni recebeu convite para treinar no Santos, mas o pai ouviu conselhos de um amigo, que recomendou o São Paulo por contar com estrutura mais adequada. Mas Rogério chegou atrasado e perdeu o teste que faria. Após alguns dias de espera, foi a campo e agradou aos olheiros.

8 - Não há exagero ao dizer que o Morumbi é, ou já foi, a casa de Rogério Ceni. O goleiro morou no estádio em seu início de carreira no São Paulo. "Morei por quatro anos, de 1990 a 1994. Conheci tudo. Era totalmente diferente. Morava no alojamento, comia pão com manteiga, leite quando tinha, luz não tinha, andava no escuro, ouvia historias assustadoras das pessoas da construção”, relembrou em 2015.

9 - O coração quase fez Ceni desistir da carreira de jogador. Ele estava apaixonado pela primeira namorada, Lucimara, que chegou a se mudar para São Paulo, mas voltou para Sinop por conta da mãe de Rogério, Hertha, que estava doente. A relação durou quatro anos.

10 - Com 20 anos, já integrado ao elenco profissional, Rogério Ceni estava excursionando com o São Paulo na Espanha, em 1993, quando a mãe faleceu. O técnico Telê Santana ficou incumbido de transmitir a notícia. Nas poucas entrevistas concedidas em que a vida pessoal virava assunto, ele se emocionou ao lembrar de Hertha.  

11 - Apesar do foco e da seriedade nos treinamentos, Ceni também tinha os seus momentos de fraqueza. Colegas relatam que o goleiro adora chocolate e não resistia a algumas guloseimas no vaivém dos aeroportos para ir a partidas no território nacional ou no exterior.

12 - Em 1996, Ceni recebeu uma proposta "quase irrecusável" para deixar o São Paulo, como descreveu no livro "Maioridade Penal", biografia escrita em parceria com o jornalista André Plihal. O Goiás teria oferecido um salário três vezes maior - na época, ele era reserva de Zetti, mas um jovem em ascensão. Internacional e Santos também o sondaram, sem sucesso. Em 2001, Rogério apresentou à diretoria tricolor um fax cujo conteúdo seria uma proposta do Arsenal, da Inglaterra. Na avaliação de Paulo Amaral, presidente do clube na época, ele teria forjado o documento e, por isso, ficou 29 dias afastado, treinando separadamente. Em 2010, o episódio foi lembrado pela jornalista Milly Lacombe, em um programa de debates do SporTV, acusando-o de falsificação. Ceni ligou para a emissora, participou ao vivo por telefone e confrontou a comentarista. O caso foi parar na Justiça.

Rogério Ceni 1997

13 - Ceni virou titular do gol do São Paulo em 1997, quando Zetti se transferiu para o Santos - e se manteve assim por 19 anos, até o fim de 2015. No mesmo ano, marcou o primeiro gol da carreira, de falta, no dia 15 de fevereiro, na vitória por 2 a 0 sobre o União São João, em Araras, pelo Campeonato Paulista. Ao se destacar no fundamento durante os treinos, ele recebeu o aval do treinador Muricy Ramalho para virar o cobrador do time. Mas, para assumir tal responsabilidade, precisou mostrar evolução e maturidade. “Quando chegou, o Rogério subiu ao time principal para o treinamento e não batia bem na bola. Fomos aprimorando devagarzinho, e aos poucos ele foi aprimorando essa condição”, contou Valdir Joaquim de Moraes, ex-goleiro e preparador da comissão técnica de Telê Santana entre 1993 e 1997, em depoimento ao filme “Rogér100 Ceni”.

14 - O São Paulo mudou de treinador em 1998. O novo chefe, Mario Sergio, proibiu Ceni de cobrar as faltas. Em 2011, ao GloboEsporte.com, ele justificou a atitude. "Quando cheguei, disse que ele não bateria por uma questão física, para não se desgastar em excesso. Se você observar, em alguns lances ele corre 90, 100 metros dentro de campo para voltar para o gol. E isso poderia causar uma contusão. Queria que ele estivesse concentrado para fazer sua função embaixo das traves. Ele aceitou sem questionar e mostrou todo o seu caráter. Nunca tive qualquer problema com ele sobre isso. Se o proibisse hoje, eu seria um demente, um idiota (risos). Mas não me arrependo do que fiz na época", explicou Mario Sergio, falecido em 2016 no acidente aéreo que vitimou a maior parte do elenco da Chapecoense, na Colômbia.

15 - Identificado com clube e torcida, Ceni virou um líder natural do elenco, imagem que ficou indelével após 25 anos defendendo o São Paulo. Ele costumava visitar o Reffis, o centro de recuperação física no CT da Barra Funda, mesmo sem estar lesionado. Ele questionava o departamento médico sobre a recuperação de jogadores do elenco que estavam machucados. Mas tamanha influência também gera problemas. Em 2013, o técnico Ney Franco sugeriu que foi demitido por bater de frente com Ceni, a quem julgava ter muita influência nos bastidores.

16 - A Copa CONMEBOL Libertadores tem um papel primordial na consolidação de Ceni como o Mito do torcedor tricolor, Nos anos 2000, o goleiro realizou atuações épicas pela competição continental, que conquistou duas vezes: em 1993, como figurante do elenco, e 2005, como capitão e protagonista. No dia 11 de fevereiro de 2004, ele marcou o seu primeiro gol na Libertadores, de falta, na vitória fora de casa por 2 a 1 sobre o Alianza Lima, do Peru.

17 - Com 14 gols na Libertadores, Rogério Ceni é o maior artilheiro do São Paulo Futebol Clube no torneio.

18 - Ceni é o jogador brasileiro que mais vezes entrou em campo pela Libertadores. São 90 partidas em nove anos. As maiores "ameaças" ao recorde de jogos atualmente são Fábio, goleiro do Cruzeiro (75), Henrique - volante do Cruzeiro (73) e Leonardo Silva  - zagueiro do Atlético-MG (70).

19 - O goleiro-artilheiro soma 8.160 minutos em campo pela Copa CONMEBOL Libertadores. É o recordista do torneio entre os brasileiros e o terceiro maior da história.

AFP Rogério Ceni

20 - Dos 51 pênaltis que Ceni defendeu na carreira, oito ocorreram na Libertadores. Foram sete em disputas por penalidades e uma com "bola rolando", durante os 90 minutos regulamentares.

21 - Defende... e marca! Ceni é o jogador com mais gols de pênalti anotados na história da Copa Libertadores: oito.

22 - Em 2005, ano em que se sagrou campeão paulista, da Copa CONMEBOL Libertadores e do Mundial de Clubes da Fifa, Rogério Ceni foi o artilheiro do São Paulo na temporada, com 21 gols - dez de falta e 11 de pênalti.

AFP Rogério Ceni Libertadores 2005

23 - Ceni marcou cinco gols na campanha que deu ao São Paulo o tricampeonato da Libertadores, em 2005. O faro artilheiro fez a diferença na fase final, quando balançou redes nas oitavas de final (contra o Palmeiras), nas quartas (contra o Tigres, do México) e nas semifinais (contra o River Plate). 

24 - O viés artilheiro também se notabilizou por gols importantes no fim das partidas em Libertadores. Na semifinal contra o River, em 2005, o São Paulo vencia por 1 a 0 no Morumbi, vantagem considerada frágil para carregar para a partida de volta, na Argentina. Aos 43 minutos do segundo tempo, Ceni converteu um pênalti (um dos mais importantes da carreira) que garantiu o triunfo por 2 a 0 - o time venceria em Buenos Aires por 3 a 2 e chegaria à final. Em 2006, Rogério também fez gols fundamentais quase nos acréscimos contra Palmeiras (oitavas de final) e Chivas (semis).

25 - O confronto contra o Tigres, nas quartas de final da Libertadores de 2005, quase lhe rendeu o primeiro hat trick da carreira. No jogo de ida, no Morumbi, Ceni já havia marcado dois gols de falta e teve a chance de anotar o terceiro, mas desperdiçou a cobrança. Ele nunca obteve tal feito, três gols no mesmo jogo, em 25 anos como profissional.

26 - Pela Libertadores, o São Paulo saiu de campo derrotado apenas uma vez quando Rogério Ceni marcou um gol: em 2010, na vitória do Once Caldas por 2 a 1, na Colômbia.

27 - Às vésperas da final do Mundial de 2005, contra o Liverpool, no Japão, Ceni havia sofrido uma lesão no joelho esquerdo, tanto que precisou passar por uma artroscopia após a competição. Mesmo assim, ele foi a campo na decisão e realizou a defesa mais emblemática de sua carreira, ao espalmar uma cobrança de falta de Steven Gerrard que fatalmente pararia no ângulo esquerdo do gol.

Rogério Ceni gol 100

28 - O dia 27 de março de 2011 é inesquecível não só para Ceni, mas para todos os são-paulino. Na Arena Barueri, cobrando falta, o goleiro anotou o centésimo gol da carreira, e diante do Corinthians. A vitória por 2 a 1, pelo Campeonato Paulista, findou um jejum de quatro anos sem triunfo sobre o rival.

AFP Rogério Ceni Lucas Moura Sul-Americana 2012

29 - Rogério Ceni já era capitão do São Paulo desde 2001, mas permitiu a Lucas Moura que fosse o primeiro a erguer o troféu de campeão da CONMEBOL Sul-Americana de 2012. O meia-atacante estava se despedindo do clube, negociado com o PSG. "Eu gosto muito do Lucas. Tive a oportunidade de levantar algumas taças pelo São Paulo e sei da emoção que é. No PSG ele não será capitão. O Lucas é um garoto muito emotivo, e achei que ele ia ficar feliz, o torcedor ia ficar feliz. A vida é assim, existem momentos em que você é a figura principal, em outros é coadjuvante. O importante é ser campeão. Ele viveu um momento de glória. Falei para ele: levanta o troféu que esse momento ficará marcado na eternidade", explicou na ocasião.

30 - Ceni protagonizou um lance curioso na Libertadores de 2013. Na partida contra o Atlético-MG, no Independência, Ronaldinho Gaúcho aproveitou uma bola que saiu pela linha lateral para se aproximar da meta do goleiro e beber água. O próprio Rogério serviu a garrafa. Mas o rival viu que estava isolado na área tricolor e se posicionau sem marcação no ataque para receber o passe - não há impedimento em arremessos laterais. Livre, R10 cruzou rasteiro para Jô abrir o placar.

31 - O último gol de Ceni na Copa CONMEBOL Libertadores saiu em 17 de abril de 2013, na vitória tricolor por 2 a 0 sobre o Atlético-MG, no Morumbi.

32 - O dia era 24 de novembro de 2013. No empate em 1 a 1 com o Botafogo, no Morumbi, Rogério Ceni bateu o recorde mundial de jogos por um mesmo clube: 1.117 partidas. A marca anterior pertencia a Pelé, pelo Santos.

33 - A despedida do goleiro na Libertadores não poderia ter sido mais amarga. No Mineirão, Ceni defendeu duas cobranças de pênalti, mas o São Paulo foi eliminado pelo Cruzeiro nas oitavas de final. 

34 - Rogério Ceni comemorou um gol pela última vez, o 131º da carreira, no dia 26 de agosto de 2015: vitória por 3 a 0  sobre o Ceará, em Fortaleza, pela Copa do Brasil.

35 - 28/10/2015: A derrota por 3 a 1 para o Santos, na Vila Belmiro, pelo jogo de volta das semifinais da Copa do Brasil, acabou marcada como a última partida oficial de Ceni. Ele deixou o confronto no intervalo, com uma lesão no tornozelo direito, e não se recuperou a tempo de atuar nas rodadas finais do Brasileirão. 

AFP Rogério Ceni despedida

36 - Pouco mais de um mês depois, um jogo festivo no Morumbi homenageou o Mito por sua trajetória. Ceni tocou guitarra, cantou e dividiu o campo com amigos, além de levar os fãs às lágrimas com um discurso emocionado. "Quando eu morrer, quero que o meu corpo seja cremado e as cinzas jogadas no Morumbi, para que eu me lembre para sempre de tudo o que aconteceu aqui", disse.
 
37 - Entre 1990 e 2015, Rogério Ceni conquistou 17 títulos - 16 pelo São Paulo e 1 pelo Sinop. Foram 131 gols na carreira: 62 de falta e 69 cobrando pênaltis. Pelo Tricolor, disputou 1.237 jogos, 978 deles carregando a braçadeira de capitão. Saiu de campo sem sofrer gol em 418 confrontos.

38 - Cruzeiro e Palmeiras, com sete gols sofridos cada, foram as maiores vítimas do artilheiro Rogério Ceni em 25 anos como profissional.

39 - Pela seleção brasileira, Ceni disputou 17 jogos, sendo 13 como titular. Foi a duas Copas do Mundo, em 2002 (em que sagrou-se campeão) e 2006. 

40 - Embora fosse um cidadão paulistano consolidado, a fazenda da família em Sinop sempre foi o refúgio de Ceni, especialmente nas férias, quando passava mais tempo com o pai e acompanhava mais de perto os avanços da plantação de soja. Há um memorial para Rogério na cidade, com fotos, troféus, medalhas e artigos pessoais em exposição. Também era momento de mostrar seus dotes culinários aos mais próximos. "Ele faz um peixe assado típico da nossa região. É muito delicioso, aprendeu com a gente a receita. No churrasco, quando vai assar a carne, ele que faz e serve", contou o amigo Paulo Morgado ao UOL, em 2015.

41 - Aposentado, Ceni passou um período nos Estados Unidos e depois viajou à Europa para estudar métodos de treinamento de alguns clubes. Em 24 de novembro de 2016, quase um ano após o fim da carreira como jogador, ele foi anunciado como novo técnico do São Paulo para a temporada seguinte.

AFP Rogério Ceni técnico São Paulo

42 - A primeira experiência como treinador, e no clube que o consagrou como atleta, durou pouco mais de seis meses. A demissão ocorreu em 3 de julho de 2017, com 49,5% de aproveitamento dos pontos disputados, sendo 37 jogos, 14 vitórias, 13 empates e dez derrotas. Com Ceni, o São Paulo caiu na semifinal do Paulista para o Corinthians e foi eliminado por Cruzeiro e Defensa y Justicia na Copa do Brasil e CONMEBOL Sul-Americana, respectivamente. Quando saiu, o Tricolor estava na zona de rebaixamento do Brasileirão após seis partidas sem vencer. 

43 - A saída prematura gerou uma constante guerra verbal entre Ceni e o presidente do São Paulo, Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, que em setembro de 2017 afirmou que o trabalho do treinador durou pouco por inexperiência. Até então sem se manifestar desde a demissão, Ceni usou sua página no Facebook para dar uma indireta. "Não se deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem", uma frase atribuída ao escritor Rui Barbosa.

44 - Ceni é constantemente questionado se aceitaria trabalhar no São Paulo novamente, mas ele condiciona um provável retorno à não presença de Leco na linhagem política do clube. "Quem sabe um dia, depois de 2020 (após o mandato de Leco), a gente volta a trabalhar no São Paulo. Esse não é o momento de voltar. É o momento de continuar uma nova carreira. Eu, se fosse o presidente, não me procuraria. E eu também não aceitaria um convite vindo dele", afirmou ao canal Fox Sports.

45 - Em 10 de novembro de 2017, pegando muita gente de surpresa, Ceni foi anunciado como novo treinador do Fortaleza. Na temporada seguinte, ano em que comemoraria o seu centenário, o clube tentaria retornar à Série A. Com uma campanha brilhante, o time cearense foi campeão da Série B e ratificou retorno à elite nacional após 12 anos. 

46- Mesmo com o "passe valorizado" após a campanha com o Fortaleza, Rogério Ceni acertou a renovação de contrato com o clube até o fim de 2019.

Rogerio Ceni Fortaleza campeão Brasileirão Série B 2018 10112018

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