No título da Libertadores do Corinthians, o 'estranho' tem nome: Romarinho

A indiferença do atacante herói na conquista de 2012 impressionava a todos no clube paulista. Em sua primeira jogada na história da Copa, ele marcou em La Bombonera

Até o dia 24 de junho de 2012, Romário Ricardo da Silva era um estranho para o torcedor do Corinthians. Contratado do Bragantino, o atacante chegou ao gigante brasileiro despertando curiosidade, como um forasteiro que acabara de aportar numa cidade do Velho Oeste. Chamava mais atenção pelo nome de craque do que propriamente pela sua trajetória. 

Da arquibancada, ao avistar o atacante no campo, um torcedor mais desavisado observa: quem é esse rapaz de cabelo despojado entre os titulares do Timão? Era o então desconhecido Romarinho, escalado entre os 11 que começariam o clássico contra o Palmeiras naquele 24 de junho. Não se sabe o que esperar. 

Mas no futebol uma partida é o bastante para mudar o destino de um jogador. De um clube. De uma torcida inteira. Romarinho começou a deixar de ser estranho para o mundo ao marcar dois gols no clássico e dar a vitória ao Corinthians por 2 a 1 contra seu maior rival no Pacaembu. Que belo cartão de visitas. 

A partir dali, só se falou no carismático, porém tímido atacante. De sua personalidade, outro traço causava ainda mais estranheza e curiosidade entre os corintianos. Romarinho era de uma frieza assustadora. Tal como o personagem do famoso filme O Estranho Sem Nome,  faroeste norte-americano protagonizado e dirigido pelo cérebro Clint Eastwood na década de 1970. Na trama, o personagem de Clint é um pistoleiro que chega a um pequeno povoado cuja população está acuada pela ação de foras da lei. O tipo, uma espécie de anti-herói, causa calafrios nos habitantes por falar muito pouco, não revelar nada sobre si mesmo e exibir uma habilidade incrível para eliminar os inimigos. Não tinha medo de nada, de lugar nenhum. 

Romarinho também. Três dias depois da estreia, o jogador estava no banco de reservas de La Bombonera, um dos palcos mais místicos e hostis do futebol mundial, para uma final de CONMEBOL Libertadores. Até então, o atacante era um estranho para a competição, para os torcedores do poderoso Boca Juniors. Até os 39 minutos do segundo tempo. Quando o Boca vencia por 1 a 0, Romarinho entrou em ação. Em sua primeira jogada, ele empatou o jogo. Em La Bombonera. 

Foi como se Romarinho chegasse a uma terra repleta de inimigos, e, totalmente indiferente, entrasse na sala do xerife, pegasse seu distintivo, sentasse à mesa e se auto-proclamasse a autoridade máxima do lugar, enquanto palita os dentes. Aos demais, restava observar atônitos o feito daquele até então desconhecido. Os feitos do jogador são muito mais nobres, claro. Em 2017, por exemplo, ele usou da mesma frieza e ousadia para marcar contra o Real Madrid atuando pelo modesto Al-Jazira no Mundial de Clubes. Ah, Romarinho...

"Olha o time do Corinthians chegando, olha o Romarinho..." Daí em diante, o resto é história. O Corinthians conquistou sua primeira Libertadores com vitória no jogo de volta por 2 a 0 no Pacaembu e Romarinho ficou eternizado no coração dos corintianos. 

Estranho no lidar, pela simplicidade, frieza e indiferença ao seu redor, o atacante de 28 anos provavelmente morrerá sem saber dar nome ao seu feito naquela noite de 27 de junho de 2012. Pouco importa. Para o torcedor do Corinthians, o seu estranho herói tem nome: Romarinho.

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