Gustavo Scarpa exclusivo: os segredos do cérebro do Palmeiras na CONMEBOL Libertadores

Em conversa com CopaLibertadores.com, artilheiro do Verdão fala como se prepara para os jogos e da tentativa de levar a criação na arte para dentro do campo

Alguns minutos de conversa com Gustavo Scarpa são suficientes para perceber sua diferença em relação à média dos jogadores de futebol. Da preparação do Palmeiras para seguir conquistando títulos, o papo percorre a situação tática do futebol sul-americano, a preparação mental para os jogos e deságua em uma agradável discussão sobre literatura, uma das paixões do meio-campista do Verdão. Scarpa usa livros, séries de TV e música como parte do aperfeiçoamento do processo criativo, tanto dentro quanto fora do campo. Os resultados, estejam ou não relacionados aos hábitos, estão aparecendo. 

Scarpa é o artilheiro do Palmeiras na Copa CONMEBOL Libertadores com três gols e acaba de ser escolhido o #BestOfTheWeek na competição, ao participar dos quatro gols da goleada por 4 a 0 sobre o Melgar (PER) na semana passada. Não é exagero dizer que, hoje, o camisa 14 é o cérebro do time de Luiz Felipe Scolari. 

No ano em que o Palmeiras completa 20 anos de sua primeira conquista na Copa, Scarpa quer colocar sua criatividade a serviço do sonhado bicampeonato. Parte desse processo ele conta na entrevista exclusiva a seguir: 

Como resume essa temporada pelo Palmeiras, após período de adaptação e baixas, e agora essa grande fase?
Eu estou muito feliz com a temporada que venho fazendo. O grupo me dá maior suporte, me ajuda bastante para ter confiança e desenvolver meu futebol. Fico feliz, não só pelos gols e assistências, mas pelas vitórias que a equipe vem conquistando. Espero mais vitórias e que tenha títulos, que é nosso objetivo. 

Já é o melhor momento da carreira?
Eu vivi grandes momentos no Fluminense também, mas esse tem sido um dos melhores, sem dúvida. Mas estou bem consciente que o que eu fiz ontem já não vale de quase nada hoje, tenho de mostrar todo dia, e esse pensamento tem me ajudado bastante a não me acomodar, tem dado certo.

Como você se prepara mentalmente para os jogos?
Eu leio bastante. Tanto a Bíblia quanto outros livros cristãos. Ouço bastante música, fico bem tranquilo nos dias de jogos, quando tem concentração jogo tênis de mesa, pebolim, brincadeira de uns cinco minutos, só para dar uma relaxada, isso ajuda, deixa a gente melhor para o jogo.

Tem alguma preparação diferente nas noites anteriores aos jogos?
Nada muito específico. Ler e ouvir música são todos os dias. 

Como estão em termos de grupo? O Palmeiras está mais forte?
É o melhor ou um dos melhores elencos do Brasil, porque tem grandes jogadores em todas as posições. A gente vem sim com responsabilidade maior, por tudo que vivemos no ano passado. Mas o grupo está bem consciente disso, ciente do que iremos encarar em todas as competições. Estamos preparados para esses desafios, vamos continuar juntos para conquistar títulos. 

Mais de um bom jogador por posição. Isso mais ajuda do que atrapalha?
Acredito que o professor e a comissão de forma geral tem lidado bem com isso, administrado bem. Muito difícil, todos qualificados gostariam de estar jogando, nem todos tem a oportunidade. Mas a gente está ciente de que precisa de um, do outro, independente de quem joga cinco minutos, o grupo precisa de todos, isso fortalece nossa equipe.

Qual a importância do Felipão para o grupo e participação dele no ambiente?
Felipão é um treinador extremamente experiente, vencedor, então tem total credibilidade, sabe lidar com um grupo fechado de grandes jogadores. A experiência dele é essencial para que o grupo continue unido, todos se sintam importantes e para que todos se aprimorem e deem o seu melhor para a equipe.

Essa experiência, esse estilo, faz diferença para o jogador acreditar no trabalho?
Eu acredito que sim. Claro que, às vezes, o treinador só vai pegar experiência disputando competições, ganhando credibilidade. E o Felipão já tem experiência. Campeão do mundo, da Libertadores. Então ele sem dúvidas pode nos ajudar muito em uma futura conquista que a gente deseja, todo mundo. Espero que isso aconteça.

Vocês se sentem mais amparados disputando essa competição por causa desse treinador?
Acredito que isso ajuda bastante. Ele sabe como funciona a competição, acho que isso é primordial, a experiência dele é essencial para que nos ajude. 

É uma competição diferente?
Sim, estilos de jogos completamente diferentes. Você pega várias equipes, de vários países, várias dinâmicas de jogos diferentes. Você pega equipe que se expõe mais, equipes retranqueiras. É uma competição muito legal, diferente, e todo mundo está com bastante confiança para conquistar.

O que vocês já aprenderam na Libertadores?
Temos de estar cientes de que não adianta fazer a melhor campanha e não conquistar o título. Então temos de esquecer o que já fizemos, continuar buscando a vitória, tentando impor nosso ritmo dentro e fora de casa. Acho que isso vai nos ajudar bastante.

Gustavo Scarpa comemora contra o Melgar

Qual sua opinião sobre os principais adversários do Palmeiras e obstáculos?
Eu, sinceramente, não tenho nenhum time específico. Acredito que todas as equipes que entram têm condições de conquistá-la, de fazer grandes jogos, independentemente de ser de maior expressão ou não. Todos os adversários serão muito difíceis. 

Concorda que ainda falta equiparar com outras escolas na parte tática?
Acho que antigamente o Brasil era fora da curva. Mas os tempos foram mudando e os outros países foram evoluindo. O Brasil era acima de todos, completamente. Então, com o passar do tempo, com a tecnologia, todo mundo vai aprimorando, vendo os jogos, isso equiparou as seleções, os times. Acho que todo mundo é muito igual, tanto na técnica quanto na tática.

São críticas recorrentes ao jogador brasileiro, de que só vai ter o ganho tático quando sai para a Europa.
É difícil, você acaba vendo alguns jogos de equipes europeias que realmente a questão tática é surreal. Mas também vemos confrontos do Mundial de clubes em que os brasileiros levaram a melhor. São escolas diferentes, não acredito que uma esteja 100% certa e a outra 100% errada. De cada uma pode tirar alguma coisa. 

E qual seu interesse pessoal em tática?
A gente procura sempre ouvir bastante não só o que o Felipão diz, mas o que outros treinadores de outros países dizem sobre tática. A gente acompanha os jogos, até mesmo no Brasil, quando há uma proposta diferente. O que a gente puder aprender é sempre bom.

Em 2019, completa-se 20 anos da primeira conquista do Palmeiras na Libertadores. Isso tem mexido com vocês de uma maneira diferente?
Acho que a gente não tem que se preocupar muito com isso, com data, números, temos de buscar fazer o melhor, conquistar título. 

O que está lendo no momento?
Acabei de ler agora Memórias Póstumas de Brás Cubas. Foi o último. Intercalo com bastante leitura cristã, no dia a dia. Mas li bastante, li dois do Machado de Assis. 

Qual foi o outro?
Dom Casmurro. Eu li alguns do Franz Kafka. Eu li a biografia do Steve Jobs. 

O que você leu de Kafka?
O Processo e Metamorfose. Esses dois. Bem legais. Li um de filosofia e futebol, um amigo meu, estagiário do Palmeiras, indicou. E li alguns cristãos. 

O que mais gostou de Machado?
Eu gostei mais de Dom Casmurro. Memórias Póstumas de Brás Cubas eu peguei uma frase legal, que me marcou bastante: "Nós matamos o tempo e o tempo nos enterra". Essa frase me marcou bastante. Mas a história do Dom Casmurro eu achei mais legal. 

Você traz mensagem de leituras que não são do esporte para te ajudar na sua profissional?
Na minha vida sempre. Na profissão, não sei. Eu li Quem mexeu no meu queijo? Bem legal, para a profissão ajuda bastante. Dicas bem legais de mudança de rotina no trabalho. Em Dom Casmurro, o final é muito legal.

E a pergunta que todo mundo faz (interrompe).
Traiu! Eu acredito que ela tenha traído. 

Traiu? Por que você acha que tenha traído?
Ah, estou ouvindo o lado dele. Você ouvindo o lado do cara, acaba sendo mais tendencioso. Agora o Memórias Póstumas achei legalzinho, mas tenho aquela frase que me marcou. 
(Nota da redação: Em Dom Casmurro, Bentinho, personagem central da trama, se questiona sobre uma possível infidelidade de seu grande amor, Capitu)

Consegue citar os livros mais marcantes da sua vida?
Essa frase do Memórias Póstumas, achei muito hilária, do tempo. O livro O Discípulo Radical, do John Stott, muito legal. Ele dá oito características de um cristão que acabam passando desapercebido hoje em dia.  O Pequeno Príncipe, muito maneira a história. E a do Steve Jobs, que foi um cara surreal. É um livro gigante, que achei que ia demorar para caramba, e li rapidinho.

Muita criatividade, né?
Muito, era assim perfeccionista. Muito legal para quem pretende abrir algum negócio, achei bem maneiro.

Dentro de campo, você também precisa exercer a criatividade. 
Exato. Você pega as atitudes dele, de querer a perfeição, de não aceitar menos que a perfeição. E se você puxar isso para o futebol, de levar à perfeição, de se cuidar, de querer ser mesmo um atleta e não só um jogador, você aprende muito. Você acaba tentando tirar algumas coisas, e essas loucuras têm me ajudado muito a desapegar de celular, de ficar muito viciado em Instagram, WhatsApp.

Como tem sido a química com a torcida do Palmeiras?
O torcedor, assim como nós, quer bastante conquistar a Libertadores. Então, o apoio deles, o carinho é muito importante para que a gente dispute as partidas com mais confiança. Eles vão nos ajudar, e espero que juntos consigamos conquistar a Libertadores. 

Mais quanto tempo quer ficar no Palmeiras?
Quero conquistar bastante títulos, crescer muito aqui dentro. A estrutura que o clube tem é surreal, então estou tentando extrair ao máximo o que tenho aqui. 

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