Gustavo Gómez diz ter 'fome de glórias', relembra origens no Paraguai e afirma: 'Palmeiras é meu lugar no mundo'

Zagueiro se sente em casa morando no Brasil, em frente à Academia de Futebol, e vê time capacitado para brigar pelo título da Libertadores, um sonho

Gustavo Gómez chegou ao Palmeiras na metade de 2018. Tornou-se titular apenas na semifinal da CONMEBOL Libertadores, após grandes atuações na "equipe alternativa" que liderava o Campeonato Brasileiro e terminou com o título. Foi tempo suficiente para o zagueiro paraguaio conquistar a exigente torcida palmeirense. Ao lado da esposa e da filha de três anos, ambas paraguaias, Gómez vive num condomínio em frente à Academia de Futebol, em São Paulo, e sente-se em casa no Brasil.

Aos 26 anos, o xerife campeão brasileiro diz ter "fome de glórias" e hoje vê o Palmeiras capacitado para brigar pelo título da Copa, um sonho que o menino paraguaio Gustavo começou a alimentar quando, "sem querer", começou a jogar futebol entre 13 e 14 anos e logo foi chamado para as seleções de base de seu país. Foi tudo muito rápido desde sempre, como o próprio descreve. O zagueiro, que já esteve no Milan, vê o clube brasileiro no nível de europeus.

Fã de rap, som que ele curte por tratar da vida e da realidade, Gustavo Gómez recebeu a equipe do CopaLibertadores.com em sua casa para uma sessão de fotos e para a entrevista que você lê agora, antes de o Palmeiras ir a campo contra o Grêmio, em Porto Alegre, pelo duelo de ida das quartas de final da Libertadores.

Você teve uma rápida identificação com o Palmeiras. Como se vê no clube hoje?
O meu lugar no mundo hoje é o Palmeiras. Graças a Deus, pude tomar a decisão de vir jogar aqui, uma instituição muito grande, de muita história. O Lucas Barrios também conversou comigo antes, isso ajudou. Agradeço o carinho da torcida, do clube. Tive a sorte de chegar e ganhar o Brasileirão, que é o torneio mais importante junto com a Libertadores. Acredito que os torcedores valorizam muito isso. O Palmeiras está sempre brigando por campeonatos, uma grande história. Eu tive ofertas para ir a Europa, mas minha intenção sempre foi chegar num clube que busca coisas importantes. Eu estou desfrutando dia a dia, com responsabilidade e fome de glórias.

Por quanto tempo você se imagina jogando no Palmeiras?
Estou muito feliz, minha família está feliz. O tempo que será necessário. Minha intenção é seguir ganhando coisas, campeonatos. O objetivo é sempre esse, estando numa instituição de tanto prestígio.

O que você já conheceu da cidade, como se sente hoje em São Paulo? Já um paulistano?
Não saio muito. Eu gosto de ficar em casa, mas a cidade é espetacular, para sair para jantar com a família. Mas também não temos muitos dias livres, são muitos jogos, e o Palmeiras sempre está em todas competições. Quando tenho tempo, curto a família, ou restaurante. Eu gosto muito de São Paulo, é uma cidade muito grande e linda.

Quem são os jogadores mais próximos, seus amigos no elenco do Palmeiras?
Pelo idioma, o Borja, Guerra, que agora saiu. Falamos muito. Tenho boa relação com todos, os companheiros são amáveis, desde o primeiro dia. Eu gosto muito deles, falo muito com Luan, Mayke, Dudu, Felipe também fala espanhol. Eu me dou bem com todos.

Gustavo Gómez - Palmeiras - especial Libertadores

Como um sul-americano, o que significa a Copa Libertadores?
A Copa Libertadores é o torneio mais importante, eu sonho em ganhar este título. Agradeço por ter a oportunidade de jogar esse campeonato com o Palmeiras, que sempre está na Copa e brigando. O sonho de qualquer sul-americano é jogar e ganhar a Libertadores.

O Dudu falou que está na hora de o Palmeiras ganhar a Copa. Qual a característica que um elenco precisa ter para ser campeão da Libertadores?
É preciso ser sólido, em todas linhas. Ser bom na defesa, ter um equilíbrio no meio de campo e atacar de forma rápida, vertical. Creio que o Palmeiras está capacitado para brigar, passo a passo, agora temos um rival muito difícil, mas temos condições de passar.

Você tinha seis anos quando o Palmeiras ganhou a última Libertadores. Você dimensiona o que seria ser campeão pelo clube após 20 anos?
Seria muito bom. Estamos lutando, com esse objetivo. Como eu falei, temos um plantel de jogadores muito bons. Todos estão sonhando com isso, e lutamos pelo sonho dia a dia.

Você foi capitão em dois jogos da Copa. Já sente um líder, qual o peso da braçadeira?
Eu agradeço a confiança do treinador sempre. É um orgulho carregar a braçadeira de capitão. No meu país, também a carrego, isso representa muito para mim e para a minha família. No Paraguai, jogadores históricos a usaram, como Chilavert, Paulo da Silva. E no Palmeiras também. Eu fico muito orgulhoso de ter sido capitão.

Você citou Chilavert. Quem são seus ídolos ou referências?
Sempre trato de olhar os jogadores históricos, como Chilavert, Paulo da Silva, Roque Santacruz, jogadores que foram líderes positivos. Eu trato de copiar isso.

Teve algum jogador com papel fundamental na sua carreira, com ajuda, conselhos?
Sim, Paulo da Silva (esteve na Copa do Mundo de 2010). No meu começo de carreira, joguei com ele, foi inspiração para mim e para toda minha geração. Antes, mais jovem, eu olhava Gamarra, Ayala, o Paraguai tem defensores históricos muito bons.

Paulo da Silva e Gustavo Gómez

O que o zagueiro paraguaio tem de diferente?
Creio que o jogador paraguaio tem um temperamento que não dá por perdida nenhuma bola. Isso faz o jogador paraguaio ser diferente.

Em qual momento da vida você decidiu ser atleta. E por que zagueiro?
Eu comecei aos 14 anos, jogava no meu povoado, em San Juan. De lá fui para San Ignácio, que fica a 30km, e já fui chamado para a seleção sub-17 do Paraguai com 14 anos. Me viram e fui convocado. Depois fui ao sub-20, fui para a Copa de 2010 na África do Sul. Foi tudo muito rápido. E aos 17 anos estava no Libertad. Aos 20 anos, comecei na seleção principal. Tudo com muito sacrifício, por isso falo do Paulo da Silva, que via treinando.

Você começou como zagueiro?
Não, comecei como volante central. Como Felipe Melo (risos). Depois fui jogar de defensor. Eu comecei no Libertad como volante.

Como te acharam na sua cidade e já o levaram para a seleção de base?
Na seleção sub-17, havia um treinador, que também foi da principal, que se chama Jorge Campos. Ele foi companheiro do técnico que trabalhava na minha cidade. Eles se comunicaram e pediram para eu ir direto para a seleção. Aí joguei Sul-Americano, com 14 e 15 anos, joguei dois sub-20.

Você teve tempo para estudar, pensar em outra profissão na adolescência?
Eu trabalhava com procuradores, fazendo fotocópias. Meu sonho era ser advogado, e trabalhar nisso. Só jogava futebol por diversão. Com 13 anos, eu conheci o senhor que tinha uma equipe na minha cidade. Quando viram que eu tinha condições, com 14, aí fui para a seleção. Eu queria ser advogado e estudar, mas chegou o futebol, que é minha vida.

Ainda há esse sonho de ser advogado?
Eu terminei meu colégio, jogando em Assunção. Para minha família, isso era muito importante, para minha mãe. Mas segui outra carreira. Mais pra frente, hoje se tem facilidade de estudar pela internet, quem sabe.

Você falou que tudo foi muito rápido. Você já esteve na Europa. Tem sonho de voltar?
Hoje estou muito bem aqui. O Palmeiras tem uma estrutura muito grande, é como estar na Europa. Eu estive no Milan, o Palmeiras não está atrás, é até melhor. Eu estou muito feliz aqui. Eu só penso no Palmeiras.

Qual é a lembrança mais importante de futebol, quando era pequeno?
O futebol de bairro. Eu sempre falo com meus amigos de infância, todo fim de semana tinha disputa de bairro contra bairro. Era como a Copa do Mundo. Eu jogava por diversão, nunca pensei em ser jogador, não fiz escola de futebol.

Você ainda tem familiares na sua cidade, vai para lá?
Vou sempre, toda minha família está lá. Minha esposa também nasceu lá, vou sempre de férias. Meus familiares estão sempre felizes, me apoiam, mandam mensagens quando joga o Palmeiras e o Paraguai, tenho muito apoio. Valorizo muito isso.

Voltando para a Libertadores. O que você pode falar do Grêmio?
É uma equipe forte, que tem história na Libertadores. Tem um bom elenco, como o nosso. Vai ser difícil. Mas como eu disse, o Palmeiras também tem sua história, lutando da melhor maneira para fazer uma grande partida.

Gustavo Gomez Corinthians Palmeiras Brasileirão Série A 04082019

O Palmeiras de 2018 também era forte e em cinco minutos saiu da Libertadores. Quais lições foram tomadas?
Defensivamente estávamos fazendo um jogo quase perfeito. Uma desatenção numa bola parada, fizeram o primeiro gol. Depois em dez minutos de desconcentração fizeram outro. Nós aprendemos, seguramente vamos estar mais concentrados nos detalhes. Uma bola parada se faz um gol. A equipe aprendeu isso.

Como você avalia o nível atual da Libertadores?
Estão as melhores equipes. Quem mais surpreendeu foi Cerro Porteño, fez uma grande partida fora nas oitavas e conseguiu uma virada em casa. Acho que é a equipe mais surpreendeu e está muito bem.

A próxima pergunta era justamente sobre o Cerro e os paraguaios. Fale mais do futebol do país na Libertadores.
Libertad e Olimpia fizeram uma primeira fase muito boa, ganharam muitos pontos, mas ficaram fora. O Cerro me surpreendeu, vi uma equipe muito sólida, os jogadores deixando a vida em cada bola, isso chamou atenção.

Vocês jogaram contra eles em 2018. Vê muita evolução de lá para cá?
Sim, sim. Estão mais sólidos na defesa, é uma equipe rápida. Ganhou de uma equipe que sabe jogar a Libertadores, que é o San Lorenzo.

O que você acha dos reforços: Luiz Adriano e Vitor Hugo?
É importante sempre quando chegam jogadores com hierarquia, dá mais força ao plantel. Joguei com Luiz Adriano no Milan, um jogador de prestígio. O Vitor Hugo tem sua história no Palmeiras, ganhou coisas, vai nos ajudar muito na Libertadores e Brasileiro.

Já li que você é fã de sertanejo. Quais músicas você ouve? 
Fizeram uma pergunta da música brasileira, eu disse que no vestiário ouço muito sertanejo. Mas eu gosto mais de rap, em espanhol. Eu escuto muito isso. Também a música de Paraguai, um grupo que se chama Calle 13, Salamandra, um rock que eu gosto. Não sou de um estilo musical, gosto de tudo. Calle 13 fala de consciência.

Gustavo Gómez - Palmeiras - especial Libertadores

Por que o rap?
É porque fala da vida, da realidade, do que acontece. Por isso. Eu me identifico, fala de política. Eu creio que o mundo gira em torno da política, tem de se interessar sempre. Tem política em todos os lados. Cada um decide seu lado, mas a política é muito importante no mundo. Não conheço o rap brasileiro, mas estou averiguando (risos).

O que é o mundo ideal?
Viver bem, em paz. Com liberdade, mas com responsabilidade, respeito. Isso é o mais importante.

Você lê sobre política?
Não quero ser político, mas eu me informo, gosto muito de história, da história do Paraguai. Não leio qualquer livro, porque também me cansa. Tem um livro paraguaio que se chama Deus Supremo, estou lendo, estou gostando muito.

Você sempre posta fotos nas redes sociais de sua filha, família, a torcida interage. Qual a importância para um estrangeiro ter a família perto?
A família é o que sustenta o jogador. Minha filha e minha esposa são as coisas mais importantes da minha vida. Quando chego em casa de uma partida, feliz ou triste, tenho sempre minha família. É o mais importante para um jogador. Gosto de desfrutar com eles. Minha filha sabe os nomes dos meus companheiros, fala do Felipão. Ela agora quer uma foto com o Felipão, ainda não cumpri isso (risos). Ela vai ao estádio com minha esposa. Ela já canta, está aprendendo. É torcedora do Palmeiras.

Fechar