Filipe Luís, exclusivo! O sonho de se aposentar no Flamengo e o trabalho de Jesus: 'Um espetáculo'

Em papo com os canais da CONMEBOL Libertadores, experiente jogador fez balanço da chegada ao Rio de Janeiro e projetou o duelo contra o Grêmio

Filipe Luís chega para a entrevista e logo sorri ao avistar uma guitarra. O rock é uma de suas paixões e não demora para o lateral-esquerdo do Flamengo pedir para ter o objeto em mãos. 

"Você toca?", pergunta a reportagem.

"Ah, bem pouco, quase nada", brinca o jogador, com modéstia. "Mas tenho algumas", emenda. 

Na próxima hora, Filipe Luís, de 34 anos, atenderia à reportagem de CopaLibertadores.com rodeado de coisas que o definem. Uma das maiores: o Flamengo. Ele é torcedor do clube desde criança e também por isso não hesitou ao se enrolar na bandeira rubro-negra do clube, num ensaio de fotos diferente que você só vê aqui.

Por fim, cubos mágicos. Filipe é capaz de resolvê-los com a facilidade que faz um cruzamento. Recebeu vários e fez até malabarismo. Tem sido divertida a experiência de retornar ao Brasil após 15 anos na Europa, para jogar no clube do coração.

"Foi mais ou menos como eu esperava, mas um pouco melhor, pela sequência de vitórias", anima-se.

Filipe falou em três idiomas: português, espanhol e inglês. O castelhano é impecável, dos anos de Atlético de Madrid. No clube, foi duas vezes finalista da Liga dos Campeões, perdendo ambas para o rival Real Madrid. Mas daria a vida para disputá-la novamente. Como uma final única de CONMEBOL Libertadores, à qual teceu pomposos elogios. O inglês também é excelente, aperfeiçoado no período em que defendeu o Chelsea. 

Filipe Luís é diferenciado. Aporta experiência, categoria e personalidade ao time. Com Jorge Jesus, vive uma lua de mel, ao ponto de falar que não imaginava aprender tanto. E traça a estratégia para encarar o Grêmio, adversário das semifinais da Copa, que se iniciam nesta quarta-feira em Porto Alegre às 21h30. Antes, leia a entrevista reveladora com o lateral do Flamengo e da Seleção, que fala em se aposentar no Rubro-Negro.

Descreva esses primeiros momentos de Flamengo. 
Tudo de uma maneira talvez que eu imaginasse, um pouco melhor do que eu imaginava, com muitas vitórias seguidas, tranquilidade. Mas eu tinha certeza, no momento que eu decidi vim para cá, que iria acontecer isso. O clube está estruturado, cada vez melhor, uma instabilidade que tinha perdido nos últimos anos e está recuperando agora. O começo está sendo maravilhoso, mas ao mesmo tempo só tenho mais vontade de vencer, crescer com o clube. No futebol, não dá tempo de você desfrutar e aproveitar as vitórias, tem sempre de pensar no próximo jogo. Está bem, mas quero mais. 

Como está sendo a adaptação? Parece que você já está no clube faz tempo.
Quando você joga com jogadores de muita qualidade do lado, jogadores que te entendem do lado, que te entendem, facilita a adaptação. É o que está acontecendo comigo. Do meu lado sempre tem grandes jogadores, como Arrascaeta, Pablo, Gerson, todos. Os que estão perto, a gente se entende rápido. A qualidade que esses jogadores têm faz com que seja mais fácil se adaptar. Quando toco para o Arrascaeta, por exemplo. Todo mundo cresce. Fora vamos nos conhecendo cada vez mais, é um processo. Estou feliz. Repito, mais uma vez, quando você coloca muitos jogadores bons juntos, a tendência é dar certo. Claro que você precisa de um mentor, um chefe, um técnico, ou um capitão, que organize tudo isso. Organize as ideias, esse time taticamente. Porque com a qualidade que a gente tem, colocado bem taticamente, todo mundo com a mesma vontade, a possibilidade de dar certo é muito grande. 

Conseguiu diminuir o uso do aparelho celular, como você gostaria?
Consegui diminuir, mas não cortar. Começo a pensar por quê. Às vezes uma mensagem, só de você ler e responder, leva muito tempo, porque você fica esperando a resposta da pessoa. Acabam sendo coisas importantes, mas com certeza cortei muito redes sociais, consegui diminuir bastante o tempo com isso. 

Já consegue ver ganhos disso?
Sim, principalmente pelos meus filhos. De vê-los com os meus olhos, não pelo celular. Isso foi a grande troca. Às vezes, você está no celular, a televisão está ligada, o teu filho tá do lado te chamando, e você não liga. Essa é a maior dor no coração, e consegui mudar isso. 

Quais hábitos novos já ganhou com a mudança para o Brasil depois de tantos anos na Europa?
Quando vim para cá, tentei o menos de mudança possível na vida. Logo escolhemos a casa, tentei fazer tudo rápido. O que tinha de fazer de papéis, de casa, todas essas coisas, tentei mudar o menos possível e fazer o mais rápido possível. Para conseguir rapidamente me concentrar no futebol. São muitas coisas, as crianças têm adaptação importante, de trocar colégio e tudo mais. Mas o que eles menos puderem sofrer, menos mudança, é melhor para a gente. Essa era minha preocupação. De colocar minha cabeça no futebol logo e esses tipos de coisas, externas, é tentar deixar mais para outras pessoas e focar totalmente no futebol. Ainda faltam coisas na vida pessoal, mas na vida de trabalho já estou conseguindo fazer a mesma rotina que eu tinha lá. 

Como tem lidado com as derrotas? Já sente menos?
Eu gosto de competir. É uma coisa que tenho desde pequeno, sou muito competitivo, sofro muito na derrota, e quando você ganha, começa a ganhar, como no caso a gente ganhou a Copa América, parece uma droga, você quer mais. É o oposto de relaxar, quero mais, mais, ainda mais agora com 34 anos. Cada vez mais eu caro ganhar, quero desafios, tenho isso dentro mim. Mas no caso da derrota, tive uma conversa com o (Roger) Federer lá em Londres que me fez mudar um pouco isso. Acredito que os tenistas tenham muita dificuldade de lidar com a derrota, até mais do que nós, por ser um esporte individual. E ele disse, quando perde tem de ser profissional, fazer as mesmas coisas, assinar todas as camisas, todas as fotos, dar os autógrafos, então escutar algo dele me fez pensar de saber lidar melhor com a derrota. 

Você disse que nunca mais iria chorar por uma derrota. 
Depois da Champions, eu tive o sentimento de que nada mais iria me causar tanta dor, eu falei isso para mim, que não iria mais voltar a chorar por futebol, um jogo, um esporte, que aquilo não poderia me afetar minha vida pessoal. Aquele foi meu pensamento: minha vida pessoal é uma coisa, a profissional é outra. E eu sei o que faço como profissional. É muito difícil, mas depois veio a Copa do Mundo, que foi tão difícil ou mais que a final da Champions, por estar representando seu país, um sonho de criança, mas aquilo é seu trabalho. Meus filhos têm de me ver como uma pessoa forte que eu sou. 

O Flamengo não chegava a uma semifinal de Libertadores há 35 anos, e isso naturalmente gerou expectativa na torcida, entusiasmo. Só que quanto mais entusiasmo, mais dura é a dor da derrota. Com esse seu pensamento de lidar com a derrota dessa nova forma, passa pela sua cabeça isso, de que pode ser um baque maior para a torcida e que seu pensamento talvez possa ajudá-los?
Assim, a gente nunca sabe o que o torcedor pensa. Todo mundo tem sua opinião, seus desejos. Tem gente que gosta do meu futebol, tem gente que não gosta, isso é natural. Tem gente que daria a vida para ganhar a Libertadores, o Campeonato Brasileiro. Eu, do meu lado, sou um profissional do futebol. O meu pensamento é o próximo jogo. Na Libertadores será o Grêmio, no Brasileiro temos outros jogos. O meu papel é pensar nesse jogo, analisar o adversário, o que vai cair do meu lado, e não pensar no que vai causar frustração ou tristezas nas pessoas por causa de um título. Sou mais competitivo que quase todos os torcedores, vou fazendo meu trabalho, e depois o que vier, é o que terá de ser. 

Filipe Luís - Flamengo

Você falou no começo do ano que esperava um novo contrato no Atlético de Madrid para poder se aposentar no clube. Isso não aconteceu. Ficou alguma chateação por não ter saído como você esperava?
Não. Quando você está muito tempo no futebol, como eu desde 2003, você vê outros jogadores que se aposentaram, a gente tem de ser inteligente e entender a realidade do futebol. E a realidade do futebol não é o que a gente vê. Depende dos objetivos do clube, do tipo de jogo que eles querem. A gente tem de se realista, a idade chega para todo mundo. Eu tive a oportunidade de ficar no Atlético. A nossa relação é muito boa, tanto é que eu e o Simeone a gente se fala, se escreve. Ele me mandou mensagem depois do jogo contra o Internacional na Libertadores. É talvez o cara que eu mais tenha carinho na história do futebol pelo que a gente viveu juntos e um cara que eu aprendo muito. O momento do futebol diz isso, que era o momento de separar os caminhos, tanto pra mim, quanto para o Atlético. Era o momento de novos desafios. A realidade ela chega para todo mundo. Chegou para mim, no momento que eu gostaria de encerrar no Atlético, com certeza. Mas o clube tem outros objetivos, outros planos para os jogadores que estão lá. Tem de se reinventar, e eu acho isso ótimo. Trazer jogadores novos, com uma nova ilusão para a torcida. Meu carinho pelo Atlético é infinito e agora essa nova ilusão na minha vida fez com que eu tivesse de novo esse frio na barriga que eu não sentia. 

E agora, a ideia então é se aposentar no Flamengo?
É difícil falar. Se eu gostaria? Claro! Mas também não sei se o Flamengo vai me querer daqui três anos. Meu pensamento foi esse quando conversamos lá em Madri para acertar com o Flamengo, para essa assinatura. Meu pensamento é de vir aqui, fazer bem esses anos de contrato. Se eu estiver bem continuar, senão me aposentar, e aí já começar a parte de técnico que eu gostaria de ser. Agora, o que o futuro espera só Deus sabe. Então, pés no chão. 

Acredita que está havendo um êxodo para o futebol sul-americano, que isso é uma tendência?
Depende do que o jogador quer. Meu sonho e objetivo sempre foram jogar na Europa. Tem jogadores que já pensam no financeiro, vão para a China, escolhem um mercado mais alternativo, alguns vão para os EUA, depois dos 30. E eu nunca... O que sempre me motivou foi essa pressão. De fazer história  num clube, ter essa identificação, como senti com o Figueirense no começo da carreira. Mas cada pessoa é diferente. Agora, tendo voltado, Rafinha, Dani Alves, De Rossi, Salvio, Juanfran claro que ajuda. As pessoas veem que o futebol sul-americano está crescendo, os clubes estão melhorando, dando melhores condições, pensando em melhorar. As condições dos gramados. E esse é o primeiro passo. Até mesmo daqui uns anos, quando parar de jogar, eu gostaria de seguir ajudando o futebol brasileiro a melhorar. 

Você já disse que o Diego Costa, seu ex-companheiro de Atlético, quer jogar no Flamengo. Isso é brincadeira ou acredita mesmo que ele vai jogar no clube um dia?
Acredito que sim. Ele é o jogador ideal para o Flamengo, o estilo de jogo dele, vai cair nas graças da torcida rapidamente, e espero estar aqui para viver esse sonho. Vai ser muito legal. 

A gente percebe um brilho nos seus olhos ao falar da Libertadores. Como tem sido para você disputar a competição?
Depois de disputar Europa League, Champions, tinha muita vontade de viver esse ambiente de Libertadores. Claro que nada se compara com uma Copa do Mundo, o ambiente que é gerado por essa competição é muito maior. Mas obviamente que a Libertadores ela transmite um sentimento de luta, de entrega, de raça. A torcida lota o estádio e parece que dá um extra. Esse ambiente é bom. Eu tinha essa vontade de viver. Foram contra um clube brasileiro, ainda não pude enfrentar clubes de outros países, argentinos, são diferentes. Mas é uma competição realmente espetacular e também sinto que quer crescer como o Campeonato Brasileiro também. 

O que achou do nível técnico?
Como falei, só joguei com um time brasileiro. No fim das contas, são clubes brasileiros, conhecemos. Mas para estar na Libertadores tem de estar com nível técnico superior, é uma competição que exige. Cada vez mais difícil, mais complicado, talvez uma das competições mais difíceis de se ganhar no mundo. Porque tem viagens longas, muitas adversidades no caminho. Mas, ao mesmo tempo é gratificante. 

O fato de ter jogado as últimas três semifinais, enquanto o Flamengo não chegava há 35 anos, dá vantagem ao Grêmio?
De certa forma, sim. Porque eles estão mais acostumados, porque sabem lidar com essa pressão, mas cada jogo é uma história, tudo pode acontecer. Você pode jogar 10 jogos contra um time em um mês, ganhar, e perder no décimo primeiro. Eles já têm essa tranquilidade de ter jogado mais, mas também estarão pressionados do mesmo jeito que estamos. 

Filipe Luís - Flamengo

Everton Cebolinha. O que esperar desse jogador?
Ele me deu uma Copa América sou agradecido sempre por esse esforço dele. Foi um prazer jogar ao lado dele. E sofrê-lo será muito difícil, ele tem muita força na hora de arrancar, dribla com muita facilidade, sabe sair no meio de dois. Me lembra, talvez seja o jogador que mais me lembra o Hazard jogando, o Hazard talvez e até gosta mais de jogar de costas, porque ele gira em cima do adversário, o Everton já gosta de jogar mais de frente, mas é um jogador perigosíssimo, e um só não consegue defender, então temos que fazer uma marcação especial nele para tentar pará-lo. 

Como marcá-lo? Tem alguma forma de pará-lo?
Existe. Dois jogadores em cima dele. É o único jeito! Um cara desses pega no mano a mano, de dez ele vai passar oito, sete. O perigo já está sendo criado, o mais importante é que esses jogadores não joguem soltos, livres em campo, sempre tenham vigilâncias. E. como falei, quanto mais gente nele, melhor.

Qual sua opinião sobre a final única, já que disputou duas finais de Champions neste formato?
A melhor coisa que existe. Campo neutro, um jogo só e que ganhe o melhor! Às vezes, você joga uma final fora de casa, na casa do adversário, e você se depara com coisas que são inesperadas, o cara faz alguma coisa estranha no gramado. É melhor, todo mundo vai ter as mesmas condições de ganhar, que ganhe o melhor! As duas finais que joguei foram espetaculares! Pagaria tudo para jogar de novo, mesmo perdendo!

O que o torcedor do Flamengo pode esperar nas semifinais?
A mensagem para o torcedor é que sempre fui da opinião que ela tem de ser dada dentro de campo. Falar são palavras, você pode falar aqui mil coisas, vamos dar a vida, mas só dentro de campo. O que podemos falar é que trabalho não falta, todo mundo está trabalhando muito, duas vezes por dia. Pessoal com dores está se tratando o dia inteiro, quem está estudando muito nossos adversário,s está se cuidando, e vamos chegar na melhor forma possível para esse jogo. A torcida do Flamengo vai ver a melhor versão dos jogadores do Flamengo. A partir daí, que vença o melhor, que o juiz passe desapercebido, e vai ser um jogão porque o Grêmio tem um timaço!

Como tem sido trabalhar com Jorge Jesus?
Um espetáculo! Todo dia aprendo muito com ele. Nunca imaginei que fosse aprender tanto ainda nessa altura do campeonato, mas a gente aprende. E me faz ver que nunca soube tudo, mas não sei tudo de futebol. São muitas coisas, muitas ideias diferentes de cada técnico e todos eles têm uma ideia diferente para passar para cada jogador. E tudo isso tento absorver para usar quando for treinador. E tem sido espetacular trabalhar com ele. Ele transmite uma força, e uma sabedoria do jogo que faz com que isso se veja dentro do campo. Isso é difícil. O treinador transmitir algo que depois se veja dentro do campo.Tanto tempo no futebol ele sabe como transmitir, passar essa confiança para a gente, para ganhar os jogos. Todo mundo está na mesma onda, no mesmo sentido. Isso é fundamental para quem quer conquistar grandes coisas. 
 

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