Felipe Melo: 'Hoje eu posso dizer que amo o Palmeiras e penso em encerrar minha carreira aqui'

Aos 36 anos, volante fala sobre identificação com clube e torcida, sonho de conquistar a Libertadores, carreira e personalidade forte. 'Eu não sou personagem, eu sou autêntico'

Por Marcio Porto e Thiago Salata

Uma segunda-feira de manhã ensolarada num luxuoso condomínio de Alphaville, em São Paulo. Felipe Melo senta do lado de fora da casa, onde bate papo com pai, filho e seu assessor. O imóvel foi comprado há pouco tempo pelo jogador do Palmeiras. De contrato renovado até o fim de 2021, Felipe tem planos de seguir vivendo na cidade mesmo quando se aposentar. Aos 36 anos, ele ainda não sabe responder se este é o último contrato de sua vitoriosa carreira. Mas tem um desejo: pendurar as chuteiras no clube atual, o qual ele agora diz amar.

Felipe cumprimenta a equipe do CopaLibertadores.com e segue sua resenha, na qual fala de jogos que viu no fim de semana, da insatisfação com alguns comentaristas de TV, entre outras coisas... O jogador que carrega o apelido de Ousado não tem a menor cerimônia para falar o que pensa. Por mais de duas horas, abriu as portas de sua sala, na qual há um grande quadro com uma foto sua cara a cara com Messi num Argentina x Brasil de 2009, para dar entrevista e posar para fotos que fogem aos padrões dos boleiros atuais.

Confira o papo com o jogador do Palmeiras, que nesta terça decide uma vaga nas quartas de final da CONMEBOL Libertadores contra o Godoy Cruz, no Allianz Parque.

Primeiro, gostaria que você se definisse: Felipe Melo por Felipe Melo...
Eu sou um cara autêntico, um bom filho, bom pai, bom marido, bom amigo. Um verdadeiro trabalhador, um verdadeiro sobrevivente, que saiu cedo do país para buscar a vida fora. Eu sobrevivi.

Por que se define um sobrevivente?
Um sobrevivente autêntico.

Você criou o apelido Ousado como uma marca sua. Qual é a definição de ousado?
Ousado é ousado (risos). Isso veio de uma brincadeira de amigos, a gente jogando videogame, em brincadeiras nossas, um chamava o outro de ousado e acabou pegando. É normal com uma figura pública que as pessoas vistam a camisa daquilo que você fala. Isso vem lá de fora. Na Turquia, eu falava ousado e as pessoas repetiam sem saber. “Ousado, ousado, o que é ousado?”. Aqui no Brasil vestiram a camisa, onde eu vou me chamam de Ousado. Eu ganhei um cachorro de presente que já veio com nome Ousado. Pegou.

O Palmeiras hoje é um clube ousado?
A história do Palmeiras é ousada, não é só hoje.

Por quê?
É só você ver o tanto de títulos que o Palmeiras tem, é um dos que mais tem no Brasil e no mundo. A história do clube já responde porque é um clube ousado.

Você sempre se mostra nas redes sociais vendo jogos, torcendo, quando está fora. Como é o Felipe Melo torcedor?
Sou um torcedor normal. Eu viro mais um palmeirense. Eu sofro quando as coisas não vão bem e dá saltos de alegria quando saem os gols. Sou mais um torcedor.

Como você vê hoje sua identificação com o torcedor? Desde o começo há uma música especial para você, o que sente com isso?
Eu, graças a Deus, na maioria dos clubes que passei, tive um carinho recíproco entre torcedor e jogador. Não esperava outra coisa quando decidi vir para o Palmeiras. Eu deixei tudo lá fora, estava num clube top que é a Inter de Milão, morando uma grande cidade, deixei tudo aquilo que eu já tinha para começar uma história do zero porque confio em Deus e no meu trabalho. Confesso que a maneira como fui tratado como cheguei me surpreendeu, não esperava tanto carinho e apoio. Eu acho que isso é um dos pontos que fez eu amar o Palmeiras. Porque hoje eu posso falar que amo o Palmeiras. Sempre falei que gosto, hoje amo, porque em momentos especiais eu tive um apoio grande do torcedor, dos companheiros, da diretoria, do clube.

Já campeão, você se sente ídolo?
O Felipe Melo quando fala qualquer coisa as pessoas tentam de alguma forma tirar uma parte negativa. Algum tempo atrás, me perguntaram e eu falei que me sentia ídolo por causa da reação da torcida, do canto, sair na rua e ser abraçado, um ídolo de momento. Falei também que ídolo para história é quando ganha títulos. Eu fui massacrado. Hoje sou apenas um jogador, que se considera importante, com um título importante. Mas essa pergunta você precisa fazer para os torcedores.

Você está menos ousado, Felipe?
Não, não. Continuo ousado. É um ousado que tem pensado. Infelizmente, você ser um camarada autêntico, para muitas pessoas, se torna personagem. Tem muita diferença entre ser autêntico e personagem. Eu não sou personagem, eu sou autêntico. Às vezes prefiro não falar para não passar como personagem para os outros.

Você já disse que essa relação próxima da torcida incomoda pessoas. A quem incomoda?
Não falei que incomoda pessoas. Eu falei que quando eu dei uma entrevistando dizendo que me sentia ídolo, algumas pessoas se incomodaram. Gente da imprensa. “Como pode? Nunca ganhou título”. Então, enfim. Incomodou. Não estou aqui para agradar todos, mas para não incomodar eu falo que essa pergunta é melhor fazer para a torcida. Faço meu trabalho.

Refazendo. Você acha que essa relação que ainda é boa com a torcida incomoda alguns hoje?
O “ainda” é complicado. Acho que não cabe na frase. A ideia é que esse carinho seja para a eternidade, para o resto da vida. Por isso me dedico ao máximo no campo, fora de campo. O grande profissional não está só no campo, ele se cuida fora. Eu renovei meu contrato por dois anos, a ideia é permanecer aqui e encerrar a carreira no Palmeiras. Já tenho 36 anos, no fim do contrato terei 38. Então a ideia é ficar aqui, que esse carinho dure por muito tempo.

Você acha que é seu último contrato?
Eu trabalho para ganhar o que vem pela frente. Quando vou encerrar a carreira, não tenho ideia.

Mas está claro para você se aposentar no clube?
Se chega um amigo de olho puxado e oferece 10 ou 15 milhões por mês e uns 30 milhões de euros para o Palmeiras, acho que a gente vai pensar (risos). Como eu creio que isso não vai acontecer, minha ideia é ficar aqui.

Quando você estava fora e falava-se em volta ao Brasil, naturalmente seu nome era ligado ao Flamengo, que te formou. Então é provável que o torcedor do Flamengo não o veja mais por lá...
Um dos poucos jogadores que sempre declarou o clube que torce sou eu. Eu sempre disse que eu torcia para o Flamengo, que gosto. É claro que minha vinda para o Palmeiras e tudo que tem acontecido... Eu amo o Palmeiras. Você deixou de gostar do Flamengo? Não, porque é o clube que me revelou, tenho carinho. Você não se torna ídolo se cuspir no prato que comeu, como vejo muito por aí. É falta de educação. Tenho conquistado o Palmeiras com meu profissionalismo. Eu renovei aqui, não penso em jogar em outro clube no Brasil. Também acho que ninguém me quer no Flamengo. Eu estou no clube que amo. Tive o encaixe perfeito aqui.

Você fala muito do bom ambiente do Palmeiras. É um dos melhores que você já viveu?
Elenco bom de trabalhar é o campeão. Mesmo que tenha brigas, o pano é passado. Eu já trabalhei em elencos maravilhosos que não ganharam nada e se falava que tinha confusão. Não é o caso do Palmeiras. É um clube no qual as pessoas se respeitam. Isso é muito importante. Temos feito amizade. Claro que você tem afinidade com um ou outro, normal. Mas há respeito com todos. Nós ganhamos, isso é bacana.

Não precisa ser amigo no futebol, é isso?
Na vida, né! No seu trabalho. Eu tenho situações fora do futebol que lido com pessoas que não tenho intimidade, mas são ótimos profissionais. Mas não vêm na minha casa jantar. Não porque não gosto. Só não é amigo. Na vida, poucos eu chamo de amigo. Eu tenho muito cuidado com essa palavra. Amigo é uma palavra forte. Amigo é quem entra na sua casa, come com você e você confia. É a vida.

O Palmeiras chegou a um patamar dominante, tem um treinador campeão mundial. Há um clube hoje mais poderoso?
Eu aprendi, jogando todos esses anos, em clubes poderosos, que não há um mais ou menos poderoso. No Brasil há outros grandes com bom poder aquisitivo. Pode ver o Flamengo, o Internacional também. Até quando estava na Segunda Divisão eu falei do Inter, que é grande. Eu acho que tem um treinador top, se fala pouco dele. O São Paulo tem contratado muito. O Palmeiras está entre os cinco grandes com esse poder.

O Palmeiras passou por outras eras semelhantes. Parmalat, talvez a maior, que fechou com título da Libertadores. Você acha que esse título é preciso para consolidar uma era?
O Palmeiras tem tantos títulos no currículo que seria injusto colocar uma geração vencedora só porque ganhou a Libertadores. Eles levaram a Libertadores, mas não o Mundial. Quem levou o Mundial foi em 1951. O maior título é o Mundial? O pessoal da Libertadores não presta? Geração vencedora levanta troféu. 1951 é vencedor, quando ganhou a Copa do Brasil com o Felipão ainda, com menos poder, é vencedor. Somos uma geração vencedora que busca também ganhar esse grande título que é uma obsessão. Trabalhamos para isso.

A Libertadores é um sonho seu?
Eu vejo a Copa do Mundo como ápice. Abaixo eu via a Copa das Confederações, porque tem seleções campeãs. A Eurocopa, que não jogamos. Um título importante com seleção vale mais do que títulos de clube, tirando a Champions League. Ganhei a Copa das Confederações com a seleção (2009), ganhando da Itália. Tive a oportunidade de chegar numas quartas de Champions com o Galatasaray. Ganhei títulos na Europa. Na América do Sul, o ápice é a Libertadores. É a obsessão de todo jogador. Já ganhei outros títulos no Brasil, não ganhei a Libertadores, então para mim é um objetivo. Não só meu, mas de todos.

Você falou obsessão, lembramos da música que a torcida canta. Você decorou?
Essa parte é decorada por todos. “A Taça Libertadores obsessão, tem de jogar com alma e coração, olê olê”. Está na alma de todos.

O que faltou em 2018 na Libertadores?
Faltou ganhar do Boca. Faltou fazer a nossa parte. Quando a gente saiu, parecia que todo ano o Palmeiras chegava em semi e final de Libertadores. Pelo que me consta, fazia bons anos que isso não acontecia. Não é fácil. Fizemos um ótimo trabalho, mas quando não é campeão... Ser vice ou décimo pra mim é igual. Tiramos lições. Em cinco minutos todo um trabalho pode ser jogado fora. Foi o que aconteceu. Passamos de novo em primeiro geral na Libertadores. Mas se falhar em um minuto, perde. Nosso foco é esse, não deixar isso acontecer.

Como você vê esta Libertadores?
Os times argentinos estão voltando de férias, é difícil falar. Todos os brasileiros são fortes. Jogar contra a Argentina é sempre complicado, não tem jogo fácil. Não tem grande ou pequeno. É mata-mata, ninguém é fraco. É parada dura.

O que muda num jogo de Libertadores?
Os clubes da Libertadores são muito mais preparados. Quem não está preparado está fora da Libertadores.

A gente vive um domínio do River Plate na América. A última final foi argentina. Eles estão na frente?
Estavam na frente ontem, hoje não. Agora só o final que vai dizer.

Ganhar dos argentinos é mais gostoso?
Gostoso é ganhar. Não importa de quem. Eu gosto é de ganhar. Respeito o futebol argentino, acompanho muito (leia mais sobre o tema aqui).

Um exercício agora. Se você tivesse o poder de mudar coisas. O que você mudaria no futebol?
Eu tiraria três centímetros do goleiro da Holanda e aquela bola do Kaká teria entrado, nós teríamos vencido a Copa do Mundo de 2010 (risos).

O que você mudaria no Palmeiras?
Nada para mudar.

O que você mudaria na carreira?
Acho que nada. Tudo serve como aprendizado. Tive muitos erros na carreira, mas que serviram para eu aprender.

E na sociedade?
Educação. Tudo passa pela educação, no meu modo de ver. É o pai que vai com a criança no estádio e o pai pede pro filho xingar. Você acha que essa criança vai crescer e fazer o quê? Vai ser corrupta? Será que vai pegar numa arma? Falta educação para a sociedade.

E na vida, o que mudaria?
Na minha vida não mudo nada. Tenho quatro filhos maravilhosos, uma esposa maravilhosa. É uma mulher sábia, como diz a Bíblia. Meus pais são duas pessoas que são amigos, espelhos. Irmãos maravilhosos. Tenho amigos, tenho saúde. Tenho Deus.

Especial Felipe Melo - Palmeiras

O que você mudaria na seleção brasileira?
Aí vou cair naquela... Vou pensar, não vou falar (risos). Eu falei que tenho evitado de ver jogos para não torcer contra. Mas num clássico, entra o patriotismo. Converso com pessoas que estão na seleção, considero, seria feio torcer contra. A seleção ganhou um título importante. É preciso fazer escolhas certas para não passar vergonha na Copa. O treinador faz um bom trabalho. Às vezes a gente acha que poderia ter alguém do Palmeiras, do Flamengo... Só acho que se pode dar mais moral a jogadores do seu país. Um jogador que bomba no Brasil tem um clamor menor do que o que está fora.

Você falou de exemplos, como de pai e filho. Você faz autocrítica de coisas que fez e não são bons exemplos?
Muita! Por isso, sou ser humano. Ser humano erra. É passível de erro. Por isso não mudo nada, porque serviu de exemplo pra mim. Minha esposa, sábia, me ajuda. Meus filhos. A autocrítica é essencial para o ser humano.

Hoje você é um Felipe Melo melhor, como jogador e pessoa?
O erro vai te seguir pela vida toda. Quem está vivo erra. O melhor Felipe Melo não vai existir, mas vamos buscar sempre uma melhoria.

Há quem te considere jogador raiz, como dos anos 90. Falta isso hoje?
Tem muito politicamente correto.

O que você considera politicamente correto?
O que você achou do jogo de hoje? “Foi muito bom, o Palmeiras tocou a bola de lado...”. Respostas prontas. Não são respostas do coração, respostas autênticas.

Isso te incomoda?
Não me incomoda. Só não sou assim. Cada é cada um.

A falta de autenticidade dos jogadores faz eles receberem mais críticas?
Pelo contrário. Quem recebe crítica sou eu, que sou autêntico. Tem jogador que perde de 3 a 0, mas fala frase bonita e, nossa, que lindo que ele é. Passam pano.

Não é importante também ser político?
Claro que é. A política rege o país. Por isso que fui político aqui agora com você (risos).

Quem são suas inspirações no futebol?
Verón é um cara que me inspirei, errava muito pouco. Os grandes volantes hoje não erram passe, mas a maioria é para o lado ou para trás. Verón subia linha, diagonal... O Dunga jogava dando três dedos, dava carrinho, caráter dentro de campo, força, raça. O Vampeta nos tempos bons dele jogava demais, fazia gol, roubava bola. Três caras que me inspirei da posição.

Especial Felipe Melo - Palmeiras

Falta uma pergunta. Não falamos do Felipão. O que pode dizer dele?
É um cara que tem essa autenticidade, fala o que pensa. O Felipão ganhou alguns títulos né, uns 60 aí. Sou suspeito de falar, porque me ajudou bastante, no quesito de tranquilidade. Ele cobra, mas te deixa tranquilo. Eu só via de longe a família Felipão, não tinha trabalhado com ele. Felipão cobra muito, mas sabe cobrar e isso é importante.

Como foi a conversa com ela em 2018 após sua expulsão na Libertadores contra o Cerro?
Conversa boa. Ele me cobrou da maneira que eu tinha de ser cobrado. Quando é o Felipe Melo, a proporção é maior. Não via aquela jogada como vermelho, eu peguei primeiro a bola. Não quis lesionar. Mas aconteceu, foi até importante... Eu tive essa conversa com o Felipão e comecei a conhecer melhor ele. Eu fui cobrado e abraçado, isso é muito bacana.

Você acha que melhorou depois daquilo?
Autocrítica. Meu futebol acho que não melhorou, ganhei alguns títulos individuais antes e não depois. Eu mantenho uma regularidade. Isso me levou a grandes clubes. Sou nota 6, um jogo 8, depois 6. Isso é importante. É claro que pela autocrítica e querer melhorar, numa jogada ou outra eu mudei. Mas ainda tomo muito amarelo. Creio que 80% é pelo meu nome e isso chateia. Mas não tem problema. Se tiver de tomar amarelo para evitar um gol, faço sorrindo.

O Palmeiras está pronto para ganhar a Libertadores?
Está pronto para enfrentar os sofrimentos. Libertadores é muito sofrimento. Quando joga fora de casa principalmente. Se está pronto para ganhar, não sei.  Estamos trabalhando para no final poder dizer que estávamos prontos.

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