Exclusiva com Marcelo Gallardo, técnico do River Plate: 'Quando você perde, é aí que você realmente aprende'

Uma viagem pela mente do treinador que levou o clube a argentino a ganhar duas Libertadores. Ele detalha seus métodos e relembra a final histórica contra o Boca

Quando iniciou sua trajetória como treinador do River Plate (ARG) em 2014, Marcelo Gallardo era "apenas" um talentosíssimo ex-jogador do clube que havia conquistado alguns títulos. Hoje, aos 43 anos, o Muñeco, como é conhecido na Argentina, é um dos maiores nomes da história do River e fortemente apontado como o treinador mais importante entre todos que já dirigiram o gigante argentino. Isso passa principalmente pelas duas conquistas de Copa CONMEBOL Libertadores, em 2015 e 2018. Essa última, de valor imensurável, por ter sido em cima do Boca Juniors (ARG), o maior rival do River. 

Amparado por tantas conquistas importantes e por um estilo de trabalho obsessivo, Gallardo esmiuçou, nesta entrevista exclusiva, os métodos para se manter vencedor. Acredita que é na derrota que mais se pode aprender no esporte e tenta, com um discurso sedutor, passar isso a seus jogadores. Campeão da Copa como jogador e treinador, três das quatro conquistas do River no torneio, Gallardo sabe todos os atalhos para atingir a Glória Eterna e divide parte de seu conhecimento no bate-papo abaixo de cerca de meia-hora. 

Por que segue gostando de ser treinador? 
Eu acho que é uma profissão que continua me pegando como no primeiro dia, quando eu comecei a fazer minha experiência de técnico. Continuo gerando ilusões de poder continuar aprendendo. Resolvendo problemas. Encontrando respostas. Tudo isso a profissão de treinador dá. Se você adicionar a vocação que se encontra nessa profissão, acaba sendo um beco sem saída porque, eu sempre digo, o técnico é técnico 24 horas por dia, não se para de pensar, não para de avaliar situações, não para de analisar questões que têm a ver com a relação do futebol e as decisões. Isso continua me prendendo. Eu gosto desse jeito. É uma luta permanente e constante, com o saber de quando você tem que se desconectar. Quão longe está o ponto em que deixamos ou perdemos de vista as coisas que são importantes na própria vida. Tem todas essas nuances. Quando você se concentra em algo, acaba pertencendo a um seleto grupo de pessoas que têm a possibilidade de fazer o que gosta. E aproveita de tal maneira.

Quão intensa é a felicidade da vitória?
O que acontece é que, se medirmos qual é o grau de satisfação... São momentos muito pequenos e fugazes. Ganhar lhe dá felicidade, mas inicia outro jogo que e já vem a preparação para o próximo.

Como você lida com essa transição?
Eu sinto que sou um cara que se adapta aos momentos e não fico pensando nisso. Eu não permaneço nesse estado de conformismo. Não gosto de medir o sucesso e a felicidade do sucesso como algo que é estabelecido e não desaparece. É só algo que se desenvolve e aparece novos desafios para se sentir normal novamente. É isso. A busca de satisfação no trabalho é nesses pequenos momentos. Eles estabelecem coisas que fazem você se sentir bem e identificar você.

Afastando-se dos resultados esportivos, quais os valores de sua carreira como treinador, além de ter vencido uma final do Boca?
Eu valorizo as relações humanas que isso gera. Os fortes laços que são gerados através de uma coexistência. Você tem que entender que o treinador exige de seus jogadores. Naquela demanda, há uma linha muito tênue. Você tem que encontrar respostas do outro lado. Que eles interpretam você. Respeite a imagem do treinador como profissional e também humanamente. Então fica os lindos elos com jogadores que tive a oportunidade de trabalhar e eu ainda compartilho com aqueles que não estão mais, ainda assim nós temos uma comunicação e isso faz o treinador se sentir bem. Tem muito valor.

Como é a fábrica de estímulos Gallardo? Como você continua seduzindo?
É muito fácil. Eu faço parte de uma instituição que tem muito prestígio e que exige constantemente. É sinônimo de estar alerta o tempo todo, porque é algo que me estimula o fato de estar no lugar onde estou. Isso me estimula a continuar evoluindo como profissional.

Acontece em um momento da história em que projetos de longo prazo parecem estar em discussão ou não prevalecem. Por que o seu dura tanto?
Projetos são geralmente respeitados enquanto você ganha. É assim tão fácil e claro. Não creio que existam projetos de dois, três, quatro ou cinco anos para serem realizados se não se vencer. Então, parece-me que a partir dessa base, entende-se que, para estabelecer projetos, permanecer ligado a alguns laços fortes, é preciso sustentar-se com vitórias.

Como você digere a derrota?
Faz parte do ensino permanente. Quando você perde, é aí que você realmente aprende. É o momento em que você fica frustrado, no qual você se decepciona, é aquele que você mastiga. Isso tem a ver com a derrota. Geralmente, analisa-se muito pouco a vitória. Às vezes acontecem por uma razão. As derrotas o atingem com força. Você começa a crescer. As derrotas lhe dão um banho tremendo de humildade. Existe o equilíbrio. Até onde você tem que vencer as derrotas e até que ponto a felicidade da vitória vem.

Como faz para que a vitória não te atinja?
O melhor remédio para uma boa vitória é uma derrota. Esse é o antídoto. E nós temos que viver ganhando e perdendo o tempo todo. Porque está dentro das regras do jogo. Nem sempre se ganha. Quem acredita que ganha sempre não existe. É uma irrealidade. Quando você tem uma grande vitória, aproveite porque uma grande derrota pode vir logo.

Você segue evoluindo como treinador?
Sim, o tempo todo.

De que forma?
Eu crio estímulos para aprender. Hoje, treinadores, felizmente, temos uma riqueza de informações ao alcance das mãos, que nos faz seguir evoluindo. Conforme cresce, você pega algumas coisas que podem ser usadas e deixa outras que acabou cogitando para tentar ter tudo. Você sabe como canalizar melhor e transmitir para os jogadores. Você tem que dar aos atletas uma seleção precisa das questões.

Você se considera um obsessivo?
Eu sempre digo que luto com a obsessão. Com uma obsessão de ter que, de alguma forma, tirar proveito de pequenas coisas da vida e não perder de vista isso. Essa profissão faz com que você se envolva, se entregue muito mais tempo do que o necessário. 

Por que isso acontece com essa profissão?
Isso acontece porque é uma coisa apaixonada. Porque você gosta do que faz. Eu disse que nesta profissão eu encontrei uma vocação. Quando isso acontece e se mistura com paixão, é muito difícil sair de lá e não embarcar de cabeça.

A mesma coisa aconteceu com você quando jogador?
Eu sempre fui apaixonado. Eu gostava de jogar. Eu respondi apaixonadamente ao que sentia pelo futebol, mas comecei a despertar certos pensamentos de um treinador a partir dos 29 ou 30 anos, quando eu já estava começando a me questionar sobre tudo. Comecei a me perguntar sobre a paixão de ser um treinador. Hoje há diferença. Eu não jogo mais e agora penso naqueles que jogam. E quando eu joguei pensei por mim mesmo e ser melhor de acordo com o que eu poderia ser. Agora você pensa para quem joga e não para um só.

É possível ser um treinador sem pensamento crítico?
Não, acho que um treinador está sempre perguntando por quê. Eu acredito que, na minha opinião, é assim. Um treinador está sempre analisando. Ele está sempre resolvendo problemas. Tomando decisões Às vezes acontece, às vezes não. Sempre que alguém não consegue, a típica pergunta de por que é feita.

O que não é negociável em você?
Eu acredito que uma das coisas que, pelo menos eu aprendi que você não pode negociar, é a verdade, não importa o quão difícil seja. Deve sempre haver uma verdade na mesa. A partir dessa base, há muitos problemas que têm a ver com o gerenciamento de grupos e como lidar com muitas personalidades diferentes, mas sempre com a verdade.

O caráter dos jogadores.
Com o tempo, acho que você entende certas reações. Nós também devemos entender o jogador de futebol. Alguém que era um jogador de futebol fez beicinho em alguma decisão que você não compartilha. Parece-me que, quando há verdade e sinceridade e quando as coisas são discutidas, esse caminho corre suavemente para evoluir. Quando você não vai mais com a verdade, já existem situações em que você não pode seguir em frente. Não me deixa seguir em frente. Além de gostar ou não, isso tem a ver com a capacidade do treinador de saber argumentar quando o jogador precisa ser convencido. Há alguns que não precisam disso, eles entendem, outros não perguntam e acatam, e há aqueles que precisam de explicações e que um bom treinador de futebol tem que ser capaz de dar.

O leque de respostas a diferentes situações nasceu com você?
Algumas são naturais e outras eu as adquiri claramente aprendendo  na estrada, de várias maneiras. Encontramos respostas nas experiências de um jogador e nas experiências de treinadores que ele teve. Treino de outros colegas, de outros jogadores. Há uma abundância de oportunidades para aprender, uma coisa aberta. Você acaba incorporando coisas enquanto tem possibilidades e uma riqueza de informações, que te deixam sempre capaz de ter uma palavra ou frase para acalmar as coisas. Às vezes não, porque tem coisas que vem do sangue e você precisa lidar com o confronto. Você também precisa saber como medir essa frontalidade com a qual está indo. Essas são todas as coisas que alguém tem que perceber para gerenciar.

Isso de argumentar sempre com a verdade parece muito com Marcelo Bielsa..
Sim, nesse caso, o relacionamento dele é muito mais profissional. Eu gosto de não ser amigo do jogador de futebol, mas de saber o que acontece, o que sente, estar mais perto. Não me lembro de Marcelo ter um vínculo mais emocional, embora eu não diga que ele não tenha. Mas muito mais profissional. É uma maneira de gerenciar e acho que existem outras que são muito válidas. Como entender que o relacionamento humano, bem medido, também pode ser eficaz.

É preciso gostar do jogador?
Primeiro você tem que respeitar o jogador de futebol e através do respeito você pode alcançar tudo. Você pode amar, não querer também, mas é preciso ter respeito sempre.

O que você leva em contar em um jogador para trazer para o River?
Suas condições de futebol, primeiro, e também suas condições humanas, claramente.

Marcelo Gallardo River Tigre Superliga Fecha 25

A pressão do River.
Eu acho que é uma busca por um estilo. Eu gosto que as equipes tenham essas variáveis no jogo. Que eles sabem interpretar os momentos. Em um jogo de futebol há muitos momentos. Eles podem ser favoráveis ou desfavoráveis. Você também tem que saber interpretar quais são os momentos favoráveis e quais não são. Dentro dos momentos favoráveis, gosto de tomar a iniciativa e, quando toma a iniciativa, parece-me que o caminho para a vitória é muito mais curto. Então, a partir dessa base, gosto de ter a iniciativa dessa maneira. Mas também existe a outra. Que é detectar quais são os momentos dos jogos e, quando você detecta isso, você pode controlar as situações e, se faz isso, precisa fazer de uma forma que os jogadores se sintam representados. Deixe-os executar essa função. Quando você não coloca condições, porque às vezes os rivais te impõem isso, é preciso saber como resolver essas situações.

Ter habilidade com os pés e também sacrifício.
É como eu sentia futebol. Eu era um jogador clássico com qualidades técnicas, com visão do jogo, mas sabia que para impor condições tinha que correr. Eu não poderia me contentar só por ter habilidade, técnica e ter uma boa leitura do jogo. Se eu não corresse, era impossível jogar. Hoje o futebol é isso: saber jogar, interpretar, ser bom fisicamente. É a base de uma boa equipe. Pelo menos essa é a minha opinião.

Fale sobre ter armado a linha de três zagueiros na primeira final da Libertadores contra o Boca.
Porque era uma boa maneira de impor condições através da possibilidade de atacar tanto por dentro quanto ´por fora, com nossos laterais avançados. Poderíamos ir por dentro com nossos atacantes e poderíamos ir por fora uando não tivéssemos a possibilidade de entrar. Boca foi uma equipe que nos deu a chance de jogar dessa maneira. Pelo menos, acho que os surpreendemos na primeira meia hora de jogo. E então eu acho que a saída de Pavón os equilibrou um pouco colocando um segundo atacante e montando uma linha de 4 no meio. Isso deixou o jogo mais igual. Mas a iniciativa que tivemos naquela primeira meia hora até mais tarde se tornou mais equilibrada.

Por que a decisão de, na volta, a equipe ter sempre o protagonismo e a posse de bola?
O jogo de volta ocorreu em uma situação muito delicada porque se perdeu o foco depois de tudo que aconteceu. Ir jogar na Espanha, no Santiago Bernabeu, onde não se conhece bem o campo, onde havia muita tensão entre as duas equipas, então não houve boa distribuição da bola, estabilidade, não houve posse de qualidade, o que não nos permitiu avançar na primeira parte E então, mesmo com o resultado contra, quando os nervos foram acalmando, a equipe tomou as rédeas do jogo e essa capacidade de se identificar com o jogo que estávamos fazendo nos levou a nos sentirmos mais confortáveis.

AFP Marcelo Gallardo Copa Libertadores 2019

Os pequenos momentos.
Os pequenos grandes momentos da vida. É preciso saber que existem outras coisas fora do futebol que são muito importantes. Um exemplo claro é a família. Quando você é pai e tem filhos, o tempo em que você está imerso nessa profissão, o tempo passa rápido demais e às vezes não percebemos isso. E nossos filhos estão crescendo e você não percebe e, quando você quer perceber, já é tarde. Esses pequenos momentos são aqueles grandes momentos que você curte com os seus, com sua família, com seus amigos. Esses pequenos luxos que são importantes.

Isso vem do Pequeno Príncipe?
Eu li isso quando era um menino. Aquilo me marcou. Porque havia coisas que eram muito profundas. Pareciam simples, mas ao mesmo tempo profundas e foram marcantes para mim. É também um dos primeiros livros que li, pois há muitas coisas bonitas e simples na vida lá.

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