Entrevista exclusiva com Tevez: "Para ganhar a Libertadores é preciso ser uma equipe com todas as letras e ter um pouco de sorte"

Uma das referências do Boca Juniors falou de Bianchi, de sua idolatria por Riquelme, e do que é necessário fazer para conquistar uma nova Copa: ele compara com a Champions

O que te faz seguir gostando de futebol?
A adrenalina que se tem antes de sair para um jogo. Eu acho que é isso que se sente no peito, aquele formigamento, é o que motiva você a querer sempre jogar.

Isso é igual desde o primeiro dia?
É o mesmo, sempre foi o mesmo. Eu acho que é o que todo mundo sente saudade depois de jogar. Eu acho que é uma sensação que é muito difícil repetir novamente. É o sentimento que sempre mantém um jogador vivo.

Você ainda está sofrendo?
Menos que antes.

Por quê?
Porque você já sabe o que é o ambiente. Quando se fala bem, quando se fala mal, em todos os sentidos. É algo que eu já conheço muito.

É chato para você que se fale tanto de Tevez?
No primeiro momento , sim. Hoje, não. Hoje se fala-se muito sobre mim não me interessa porque estou em outro estágio da minha carreira. Tanto futebolisticamente quanto pessoalmente. Eu sou um jogador que quer conseguir coisas, mas se eu não as alcanço, não fico tão louco quanto antes. Eu sempre tento me superar. Acontece futebolisticamente, mas não enlouqueço no extra campo.

A mentalidade competitiva.
Sempre, senão, eu não poderia jogar futebol. Quando criança, você quer ganhar tudo que for possível. Imagine a este nível. É muito mais do que querer ganhar. É importante estar sempre bem para ganhar.

AFP Carlos Tevez Boca Juniors Copa Libertadores

O que mudou desde o primeiro Tevez até aqui?
Muito. Tanto no futebol como pessoalmente. A experiência faz uma mudança.

Em que sentido?
Tudo. Eu acho que no futebol eu sou totalmente outro jogador. Pessoalmente, sou muito mais líder no campo. Sabe-se como se movimentar, como lidar com os companheiros. É isso que a experiência lhe dá.

A mudança com o tempo?
É uma transição pela qual temos que passar. Você não muda de um dia para o outro. Mas você vai percebendo que o que fazia em 10 metros, você tem que fazer em 2 ou 3 e isso é uma transição. Você tem que viver aquilo e fazer o que é melhor naquele momento.

Você está mais ágil para ver as coisas?
Quando você para de correr e ter aquela explosão, você começa a ver. Eu não via antes. Eu costumava pegar a bola e sabia que a explosão  dava a vantagem de acelerar e alguns alguns metros dos defensores. E então você tinha aqueles metros para poder pensar em como definir a jogada. Hoje você não tem isso.  

Qual Tevez você mais gosta?
Eu gosto dos dois. Aproveitei muito os dois. No começo é mais difícil porque você tem a cabeça de 20 e o corpo de 30 ou mais. E eu acho que o contraste é muito difícil até você começar a se entrosar.

O que você recomendaria para o Tevez de 20?
Ter a visão que tenho agora.

A visão dos armadores de jogo que você teve?
Acho que tive Román na minha frente desde muito jovem. Ao vê-lo, acho que aprendi muito para ter a visão que tenho aos 35 anos.

Quando você desfrutou mais do futebol: no bairro ou agora?
Eu tento aproveitar sempre. Quando não gostar mais, acho que vou ficar em casa. Hoje ainda gosto e acho que todos os garotos têm que sentir essa sensação. Sempre que me perguntam que conselho você dá aos meninos, sempre lhes digo a mesma coisa: curtir o futebol, que é a coisa mais linda que existe. Desfrutar faz você ser feliz. Gostar do futebol te dá muito mais chances de alcançar os objetivos do que sofrer.

O que você vê nas crianças de hoje?
Hoje é muito difícil porque os pais estão no meio. Essa loucura que os pais têm de querer que os meninos cheguem primeiro e sejam os salvadores da família, essa loucura que há hoje, arrasta os meninos para ter outra mentalidade.

Qual treinador você acha que é o que mais te influenciou?
Eu tenho muitos. Bianchi, Bielsa, Ferguson, Conte. Eu tenho muitos.

O que tinha Bianchi?
Bianchi tinha uma visão e experiência únicas. Ele sabia a cada momento o que o jogador estava passando e sabia os momentos em que ele tinha que ser colocados. Nisso, Carlos era um especialista.

É bom assistir futebol?
Serve para desfrutar do futebol. Depois que você pode ver e ter uma visão do futebol e lhe dar uma ideia, mas é difícil ver o futebol e transmitir o mesmo se você é um treinador ou se você é alguém importante no grupo. O dia a dia faz você ter uma experiência, tentar dizer aqui eu estava errado, aqui não.

A ideia de ser treinador te seduz?
Hoje não.

O que você planeja fazer?
Hoje nada. Hoje eu sou um jogador. O dia que eu não for mais um jogador, vou ver.

A Libertadores.
É a taça mais importante da América. Como tal, o que motiva você a seguir em frente e dar-lhe a alegria que as pessoas de Boca querem.

Qual é o seu melhor jogo na Libertadores?
Agora eu não tenho nenhum, mas devo ter alguns.

Qualquer um de 2003?
Lembro-me de um com o América de Cali, que vencemos por 2-0, aqui, fiz um gol de pé esquerdo, nas semifinais da Libertadores.

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Compara com a Liga dos Campeões?
Não tem comparação. Um é uma loucura e o outro é mais tranquilo. Sim, é a glória eterna, nas duas Copas, aqui se vive com um pouco mais de loucura.

Por que os sul-americanos ou argentinos vivem assim com loucura?
É o DNA da América do Sul que se vive futebol assim.

Alguma equipe da Libertadores da qual você fez parte?
Com o Corinthians não sei se cheguei a jogar. Eu acho que em 2003 com o Boca nós tivemos uma grande equipe.

O que tinha ela?
A defesa e os atacantes eram muito completos. E fizemos uma mistura de jovens mais experientes que foi muito boa.

O que é preciso para ganhar a Libertadores?
Um pouco de sorte e você tem que ser um time com todas as letras.

O que seria uma equipe com todas as letras?
Uma equipe que defende bem e faz muitos gols

E emocionalmente?
Uma equipe muito agressiva, para não dizer com garra. 

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