Entrevista exclusiva com Pinola, líder do River Plate: 'A Libertadores foi a conquista mais importante da minha vida'

Zagueiro do Millonario conversou com o copalibertadores.com sobre a Recopa e como a equipe argentina se tornou uma máquina de conquistar títulos

O treinamento havia terminado há alguns minutos no CT do River, ao lado de Ezeiza, província de Buenos Aires. E apareceu Javier Pinola, caminhando tranquilamente com a cabeça levantada. Como quando joga com a camisa do Millonario. 

Ou como quando chegou à equipe, em meados de 2017, podendo ganhar o apoio dos fãs confessando-os tão fanáticos quanto eles e preferindo responder que o amor deveria ser ganho na quadra. Porque ele é assim. Depois de quase dois anos, olha para trás e vê uma longa jornada percorrida no campo internacional. E hoje se permite contar alguma ou outra história do seu tempo como um fã milionário.

- Você jogou 26 partidas internacionais, 37 como mandante no River. Quase metade foram internacionais. É como algo do dia a dia, algo comum para você já...
- Eu realmente não sabia. É bom saber isso como uma estatística. Depois, obviamente, a gente tenta levar tudo igualmente, sabendo que os jogos internacionais geralmente são de mata-mata, você não tem revanche, então você tem que tirar proveito disso. É bom, já é bom estar no River e obviamente competir para o que vier. 

- E esses dados também significam que em todos os torneios internacionais que vocês jogam chegam até o fim...
- Sim, temos saído bem em termos de jogo e resultado. De dentro, não se vê isso como algo natural, mas, é isso que River exige em todos os momentos, estar lutando por tudo. É o que tentamos fazer e esperamos continuar da melhor maneira.

- Na sua carreira isso não tinha sido uma constante, você acabou de começar a jogar no nível internacional na América do Sul pelo Rosario Central. Como é começar com essa experiência já passando dos 30?
- Ontem mesmo falava com meu cunhado e contei que um dos melhores momentos da minha carreira chegou comigo já experiente (ele tem agora 36 anos). Enquanto a gente sempre tenta e luta para querer jogar esse tipo de competição, você sabe que não é fácil e não imagino nessa idade, mas, obviamente, sempre foi um desafio tentar competir internacionalmente e agora estou conseguindo. Eu já tinha feito isso com o Central, e agora com o River que graças a Deus eu consegui ganhar a Libertadores, o que é um sonho para todos. Eu tento apreciar com a responsabilidade que isso implica.

- Para mim, se me falarem o nome de Pinola, no River, parece-me que ele é um dos jogadores mais novos, mas você vai cumprir dois anos no clube. Tudo aconteceu muito rápido?
- Sim, às vezes também penso o mesmo, que sou relativamente novo. Eu acho que tudo acontece muito rápido na vida. De fato, os primeiros seis meses, que foram os mais difíceis aqui, pareciam que o tempo não passava. Então, quando chegam as coisas lindas, como a Libertadores, a Supercopa Argentina (bateram Boca na final), passa voando e quando você quer acordar você já desfrutou, é como que você não pode tirar vantagem disso. Eu acho que se as coisas acontecem rápido, é porque você aproveita todos os dias, com seus colegas, com o grupo.

- Na loucura em que vivemos, com a pressão que você tem, há espaço para desfrutar?
- Eu tento aproveitar as pequenas coisas. Eu gosto disso, de vir aqui, de me trocar no vestiário, de estar com meus colegas, de treinar, de tudo isso. Mas todo esse prazer tem uma responsabilidade ou uma seriedade, com tudo o que o clube exige. O River não é fácil e eu tento aproveitar as coisas, a vida cotidiana. Quando saio daqui, aproveito o tempo com minha família, com meus amigos. Eu acho que isso é o que mais preenche.

- Quando vocês ganharam a Copa, você disse que era um sonho jogar no River, que você tinha visto em 1996 das arquibancadas. Como é viver um sonho?
- É muito difícil de explicar. Pelo que eu estava dizendo, por causa do turbilhão de treinamento, de partidas, não há pausa, você não tem tempo para pensar e começar a pensar em tudo o que está recebendo e no que está passando. Você consegue desfrutar quando você vê a final da Copa novamente, são pequenos momentos que fazem você lembrar e dizer 'che, olha o que eu estou vivendo'. É incrível. Foi quando eu me reuni com meus amigos, a maioria do grupo é de River, costumávamos lembrar quando éramos crianças e pensávamos... Aquilo típico, quando você saía da escola para uma viagem e passava por Lugones, via o estádio, e você dizia: "Bem, que legal isso", você começava a cantar. E hoje eu estou vivendo daqui. Eu não consigo encontrar palavras para descrevê-lo. No futuro, talvez eu ache. Mas hoje é muito difícil.

- E a Libertadores, como torneio em si, além de 2018?
- É o torneio mais importante da América do Sul, o que todo jogador do continente quer alcançar. Com tudo o que custa para obtê-la. Na Copa, você erra, paga e não pode perdoar nenhum erro. Como a Liga dos Campões da Europa. É a maior conquista para um jogador sul-americano.

- Como se faz para sempre querer mais, ir além de tudo que você já ganhou?
- Pela mentalidade de cada um, pela ideia, pelo pensamento do técnico (Marcelo Gallardo), que é o chefe do grupo e pelo que River representa, que o força e exige que você ganhe sempre. Não é fácil, porque você vence a Libertadores e pode errar e pensar: "bem, o que mais eu posso conseguir" ou "o que é mais importante do que isso?". E acredito que toda conquista é importante. E mais no River, tudo é ampliado. Então, acho que mantivemos o grupo unido, sabendo que foi uma conquista importante, mas que tínhamos que continuar vencendo. Por causa da humildade, porque sabemos que podemos dizer um ao outro as coisas na cara com sinceridade e cada um vai aceitar bem porque é para o grupo continuar crescendo.

- Se o Boca vencer a Supercopa da Argentina, vocês entram diretamente na fase de grupos dos Libertadores 2020. Você vai torcer para eles?
- Não, não estou interessado. Eu não me importo com o que os outros fazem porque estamos classificados para a repescagem (Fase 2). Eu não me importo mais do que torcer para o que minha equipe faz e colocar ênfase no que é nosso, nada mais.

- A Recopa está chegando, o que isso significa para você e como você está preparado?
- Muito bem, sabendo o que representa uma final. Você pensa que cada título com River torna você ainda maior. Obviamente vai ser um jogo difícil, é um time bem armado que tenta jogar e faz muito bem. Eu acho que são dois estilos muito similares, obviamente existem diferenças, mas ambos tentam jogar, propor, atacar. Aquele que seja mais eficaz, tenha mais concentração e inteligência fará a diferença.

- Como viram o sorteio das oitavas de final da Libertadores?
- Nós estávamos concentrados, então vimos ao vivo. Nada, felizes. O técnico disse isso. Ele queria um adversário difícil (Cruzeiro), um rival duro, que são aqueles que exigem mais atenção ainda. 

- Isso dá a sensação de que qualquer rival, exceto o Boca, seria menos estressante do que todo o ano passado, com Racing, Independiente, Grêmio, último campeão e Boca...
- E, sim, se vemos hoje tudo que já aconteceu, você percebe que a estrada não foi fácil. Mas, repito novamente, nos concentramos em nós mesmos, no que temos que fazer, obviamente conhecendo o poder do rival, mas, se você confia na sua ideia, não precisa temer ninguém. Então, são jogos de futebol, nos quais existe a possibilidade de sermos eliminados ou não. Mas se você é fiel à sua ideia e não desiste disso, você já tem um plus.

- Qual foi a sua primeira impressão de Gallardo, assim que chegou ao River?
- Um treinador sério, que sabe bem o que quer, que não hesita, que não titubeia em nenhum momento, disposto a falar e ouvir se você tem alguma dúvida. Que analisa os jogos e dá quinhentos retornos sobre o assunto, mas depois acaba dando uma resposta ou um pensamento que te faz refletir sobre o assunto. Também é um tipo sincero, com uma idéia de jogo para a qual ele não renuncia. Pode se adaptar a alguma outra coisa, mas sabe o que quer, que jogamos bem, que tentamos vim de baixo, que nos arriscamos. Isso, depois te dá paz de espírito para os jogos.

- Isso dá a sensação de que ele tem um incrível poder de convicção, que o que ele diz está dito. 
- Tremendo. Tremendo. Mas não apenas pelo fato de que o que ele diz está dito. É que ele diz, você faz e acontece. Então, como você faz para descrer dele? Porque as coisas que vai fazendo, vai dizendo e você está fazendo, vão se cumprindo. Então te fortalecem no sentido de confiança e então você diz: 'bem, sim, ou seja, você tem tudo na sua cabeça'. Então, você diz: "Sigo convencido do que estamos fazendo e continuo confiando no que ele diz".

- Ele surpreendeu com a proposta de jogo em La Bombonera, com a linha de três. Vocês haviam treinado?
- Não, não, não. Uma vez ele tenha colocado em prática em algum momento. Na Colômbia, na última Libertadores, contra o Independiente de Santa Fe. Ele usou e depois mais nada. Nós não havíamos treinado isso. Mas aí você vê a convicção e o comprometimento que o grupo tem com o técnico e com seus companheiros. Adaptar-se aos momentos, aos obstáculos, às circunstâncias do que aquele momento requer, seja um jogo ou uma proposta, o que a comissão técnica exige. Cada um coloca na cabeça 'eu tenho que fazer isso, isso e aquilo' e joga.

- Como você imagina na quinta-feira do dia 30 (data do jogo de volta da final da Recopa)?
- Obviamente eu quero que seja com a vitória, certo? Mas, não vai ser fácil. Além disso, certamente ficarei satisfeito e orgulhoso do que a equipe apresentou em ambos os jogos.

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