D'Alessandro sonha com mais uma CONMEBOL Libertadores pelo Inter e projeta volta da competição

Em entrevista exclusiva aos canais oficiais da Libertadores, ídolo do Internacional reviveu a conquista de 2010, falou do Gre-Nal e da sede por conquistar mais títulos aos 39 anos

No mês em que o Internacional celebra dez anos da conquista de sua segunda CONMEBOL Libertadores, seu maior expoente revive as deliciosas lembranças em meio à gana por mais conquistas. Aos 39 anos, Andrés D'Alessandro está perto de encerrar sua carreira, mas o desejo por erguer outra Copa segue mais do que vivo. D'Ale participou da edição especial do PODCAST da Libertadores e passou a limpo o título de 2010 com o Colorado, além de traçar o futuro. 

O camisa 10 do Inter permanece no clube campeão dez anos depois da Glória Eterna. O Inter chegou ao bi no dia 18 de agosto de 2010 no Beira-Rio abarrotado. O argentino já havia eleito esta edição como a Libertadores de sua vida. Ele estreou a nova série dos canais oficiais da Copa, "A Copa da Minha Vida", dividindo as principais recordações do momento ímpar. 

Ainda no clima de comemoração do bicampeonato, confira uma entrevista com o ídolo colorado, em que ele projeta o retorno da Libertadores, marcado para o dia 15 de setembro e o Gre-Nal da volta da Fase de Grupos, desta vez na casa do Inter. O Colorado volta a campo pela Copa no dia 16 de setembro contra o América de Cali.


Você tem números grandiosos no Internacional. É o argentino que mais disputou a Libertadores. O que isso significa?
São uma honra para mim, porque amo futebol e é a única coisa que sei fazer. Eu me preparei a vida toda e minha família me preparou para ser jogador de futebol. Isso vai ficar para meus filhos, lembranças boas, e daqui dez, 20 anos, meus filhos olharão para trás e verão o que o pai conseguiu fazer. Isso para mim é importantíssimo, deixar uma marca num clube como o Internacional. Ter sido revelado por outro clube grande da Libertadores, que é o River Plate, que ganhou muito. Ter passado pelo San Lorenzo. É um orgulho. E esses números só dizem o quão velho estou e como o tempo passa rápido (risos).

Falando da conquista de 2010, qual foi o momento mais complicado daquele título?
O jogo contra o Estudiantes lá fora. No campo do Quilmes, com aquela fumaça. Aquele jogo 2 a 0, havíamos vencido o jogo de ida por 1 a 0, então precisávamos de um golzinho para conquistar a vaga para a semifinal e apareceu Giuliano no último minuto. Não que tínhamos certeza de que iria escapar, mas estava muito difícil, muito difícil. Enfrentando um clube copeiro como o Estudiantes, que iria se fechar, o jogo acabando, com jogadores experientes, que sabem jogar Libertadores, como Verón, Orion no gol, Enzo Pérez, jogadores cascudos. Mas deu certo. Para ganhar a Libertadores, claro que tem de fazer seu trabalho, ser melhor que o adversário, saber jogar fora de casa, em casa, mas a sorte também tem que acompanhar. E você tem que acompanhar ela também. E a sorte nos acompanhou muito esse dia. E a partir daí, sentimos que poderia dar certo. E aí quando chega na final é diferente, você deixa a vida. Deixamos a vida no primeiro jogo, no México, num estádio muito bonito, um sintético, que foi diferente. Mas muito parecido com a grama natural e depois trouxemos o jogo para o Beira-Rio. E com a torcida, sabíamos que não poderia escapar.



Quem era seu grande amigo naquele grupo? E vocês mantêm contato ainda?
Eu tenho vários amigos e continuo em contato com a maioria. Mas o Taison era o cara que concentrava comigo, um dos mais novos do grupo. Foi revelado pelo clube, e quando assumiu a titularidade não largou mais, assumiu a responsabilidade. É como um irmão para mim, até hoje nos falamos, tenho contato permanente. Mas tenho contato com todos, com Magrão, com Bolívar, com Índio, com Kleber, Pato Abondazieri, Guiñazu, Tinga, Sobis, falei com Nei, Oscar. A maioria, porque a gente não esquece. Porque além de tudo era um grupo incrível. Você não consegue conquistar coisas se o grupo não for bom. Não adianta só jogar bonito. E a gente tinha muito isso. Falei com Andrezinho, encontrei o Renan agora jogando o Gauchão. E a maioria não esquece também aqui do velhinho. Sempre manda uma mensagem para ver como estou, como está o clube, como o Inter continua. Porque são caras agradecidos porque muito foram revelados pelo clube ou abriram as portas. Ou abriram as portas da carreira, como Oscar, Damião. Não pode esquecer da conquista de 2010 e do Internacional.

Você acabou não fazendo gols. Mas qual foi seu lance favorito?
O Alecsandro diz que o gol contra o São Paulo foi dele, mas... Eu fui comemorar, né? (risos). Mas se não fosse por ele, de repente o Rogério pegava. E não dá para brigar com artilheiro, goleador é egoísta. Então deixa o gol para ele (risos). Acho que o segundo gol contra o Chivas, no México, foi uma jogada minha. Contra o São Paulo, em casa, foi uma bola minha enfiada, num espaço curto, reduzido, na entrada da área. Contra o Banfield também, uma jogada com chute na trave, uma bola enfiada. Alguma "La Boba" ou outra que deve ter feito. Tenho poucos gols, gostaria de ter feito mais, mas nunca fui goleador, sempre fiquei feliz por dar assistências. Claro que é importante fazer gol, mas muitas vezes para mim era mais importante deixar um companheiro na cara do gol do que fazer. Isso me deixava muito realizado no meu trabalho.

Contra o Banfield foi um dos jogos mais duros? Foi uma grande atuação sua.
Um jogo muito difícil. O campo do Banfield é menor, e na Libertadores tem isso, o que é legal. Tem estádios com torcedores muito mais perto, existe uma pressão, aumenta a pressão. As dimensões são menores e fica difícil. O Banfield era um time complicado, com James Rodríguez. Ele jogou. Trouxemos um resultado ruim, mas sempre bom fazer gol fora de casa. O Kleber meteu uma bucha de 30 metros, nem ele acreditava no gol. Ele dava muito mais assistências. Mas esse gol nos deu vida. Acredito que se voltássemos com 3 a 0 seria muito mais complicado e muito mais difícil. Foi uma característica nossa, de passar todo mata-mata com gol fora de casa. Passamos em todos assim, só na final que conseguimos respirar e ter uma tranquilidade maior. Depois do segundo gol do Damião. Mas todos foram complicados até o último minuto.

Sua entrevista no campo após a final é histórica. Chorou, citou a família. Queria que você lembrasse daquela entrevista.
É que eu tinha o sonho de ganhar a Libertadores. Para mim, como se fala, é aquela frase feita: tocar o céu com a mão. Chegar ao topo. Não tem mais nada depois disso. Claro, tem o Mundial, mas para chegar ao Mundial tem de ganhar a Libertadores. Eu tinha esse objetivo e não queria passar sem ganhar. E você fica marcado. E meus pais sempre estiveram comigo. Dando suporte. Eu tinha dois filhos, hoje tenho três. Eram pequenos. Hoje eles já conseguem entender um pouco mais o que é a Libertadores, o que representa o pai na história do clube. Porque eles vivem isso no colégio, na escola. Falo sempre para eles, que eles têm seu nome próprio. Eles têm uma vida pela frente, e eles têm de fazer seu caminho. Mas é bom lembrarem sempre do trabalho que o pai fez para conquistar as coisas. Do que o pai ralou. É o que meus pais passaram para mim e eu tento passar para eles. Um legado importante.

D'Alessandro - A Copa da Minha Vida - Internacional 2010

É a última Libertadores? Ainda tem vontade de ganhar mais?
Vontade eu tenho, de conquistar coisas. Até o último dia. Porque eu sou assim, meu caráter, me leva a não relaxar. Não existe. Enquanto eu tiver a parte física em dia, me sinta bem. Consiga estar à altura do que pede hoje o futebol, porque está cada vez mais difícil, mais parelho. Fisicamente você precisa sempre de mais, para se manter em alto nível. Continuo sonhando em conquistar e tomara que seja uma Libertadores. Aos 39 anos, o que vier de cima eu pego. Se for raio também (risos). Eu pego tudo. Qualquer título hoje na minha carreira vai significar muito. Mas para mim o mais importante é seguir jogando futebol. Não sei até quando minha parte mental vai deixar. Acredito que meu profissionalismo me ajuda a manter. Claro que não como antes, mas é normal. Enquanto puder dar resposta mentalmente, vou continuar.

Como você vai contar aos seus netos o que foi a noite de 18 de agosto de 2010, quando o Inter conquistou o bi da Libertadores?
Primeiro, eu mostrarei fotos para meus netos. Com certeza, meus filhos mostrarão para seus filhos. Camisas que tenho guardadas, fotos, taça, medalha. E alguma ou outra história que contarei. Com cabelo grande, se ainda tenho cabelo (risos). Mas por isso digo, que as taças são importantes. Eu me preparei muito para conquistar coisas, ser alguém no futebol, para deixar um legado. Não foi fácil para mim, não foi fácil para meus pais. Não vai ser fácil para meus netos. Nada é fácil, tudo é difícil. O legado que eu passo, volto a dizer, é humildade, trabalhar, profissionalismo, personalidade e buscar o sonho. A gente tem que sonhar. Eu sonhei, tive a sorte de conquistar e continuo sonhando.

Internacional Libertadores 2010

Em 2008, quando chegou ao Internacional, imaginava que seria algo tão duradouro assim?
Se eu falar que sim, hoje, é mentira. Eu cheguei com uma ideia de me adaptar ao futebol brasileiro, que eu sempre gostei, admirei. Era muito fã do futebol brasileiro, por causa de Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo, Roberto Carlos. Tinha figurinha do Ronaldinho, via jogo, do melhor Imperador na Inter de Milão. Até meu pai falava da seleção de 70 que ele acompanhava, de Tostão, Pelé, Rivellino. Sempre falava. Então eu esperava fazer alguma coisa boa no futebol brasileiro, mas não o que aconteceu depois. Se eu imaginasse, acho que foi uma loucura. São 13 títulos, quase um por ano. Faixa é faixa. A gente joga pela glória, pela conquista. E depois a gente coloca um com mais importância do que o outro. Mas no currículo, sempre ficarão as conquistas marcadas. A partir de 2008, acho que o Inter mudou minha carreira, mudou completamente, me abriu as portas para poder ser parte de uma história muito linda. De um clube muito bom, que me acolheu muito bem, que não tenho nada que reclamar. E que ainda me aturam depois de 12 anos. Continuo caminhando pelos corredores do clube e o torcedor reconhecendo meu trabalho. Isso não tem preço. É o melhor de tudo.

A fumaça do jogo contra o Estudiantes nas quartas de final atrapalhou o goleiro?
Eu não tenho certeza, mas acho que atrapalhou, sim. A visão do goleiro e do Giuliano também. Não foi a gente que colocou a fumaça, né? Mas acredito que atrapalhou a visão dos dois.

Giuliano foi um talismã mesmo né?
Foi importantíssimo. Ele fez seis gols na Libertadores. Virou titular depois. Mas muitas vezes ele vinha do banco e decidia. Foi um dos caras que nos ajudou muito nessa conquista.

De volta ao momento atual, qual nível da Libertadores hoje após dez anos e como analisa o retorno da competição?
É atípica, né? Todos os campeonatos estão sendo atípicos. Eu comparo com um ator. Ele faz uma atuação e não tem o público. Ele atua para quem? E o atleta é a mesma coisa, só que a gente tem que se acostumar. O nível da Libertadores vai ser muito bom como sempre foi. Claro que alguns campeonatos voltaram antes, outros demoraram, Argentina voltou há duas semanas. Claro que pode ser um complicador para as equipes argentinas. Podemos achar que sim por ficar muito tempo parado, porque é muito difícil para o atleta. Estamos acostumados a treinar todos os dias, não tem folga. Temos um trabalho muito bom, somos privilegiados por sermos jogadores de futebol, sempre falo isso. Fazemos o que gostamos e ainda somos bem remunerados. É um privilégio, é diferente. Mas acredito que o nível continue igual. A gente torce para que seja um campeonato como sempre foi, com brigas de times grandes. Com essas viagens que serão diferentes também, a logística. Temos de nos acostumar, mas a volta do futebol, para nós, atletas, faz bem. No meu caso, é a única coisa que sei fazer e tenho pouco tempo para terminar minha carreira. Ficar muito tempo parado foi difícil, complicado. Para as equipes argentinas ainda mais. Espero que isso não seja desvantagem para eles, que possam voltar fisicamente num nível bom para competir de igual para igual.

Como projeta o Gre-Nal da volta da Libertadores e qual foi sua visão do anterior?
Mexeu com a cidade, com os dois clubes. Não fomos exemplo, o final não foi esperado. Mas até o momento daquele atrito, acredito que tenha sido um jogo muito bom. Dois times jogando, com intensidade muito grande, jogando para frente, tentando agredir, jogar bem. Tivemos muito perto da vitória, duas ou três chances. Mas falando em Libertadores, foi um resultado bom. Sempre jogar fora de casa e não perder sempre é bom. Digo sempre que há dois campeonatos dentro de um. Tem de classificar e depois começa o mata-mata que é totalmente diferente. 

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