D'Alessandro exclusivo: 'A Libertadores é um título que não se compara com nada'

Camisa 10 do Internacional conversa com CopaLibertadores.com e alerta para necessidade de se pensar no jogo além do resultado. Ele espera deixar um legado no Inter

Andrés D'Alessandro recebeu a equipe do CopaLibertadores.com em uma manhã ensolarada em Porto Alegre para falar de futebol. O encontro é incomum, já que o argentino concede pouquíssimas entrevistas exclusivas. Mas D'Ale adora falar do esporte e o papo se estende por quase uma hora. Tem um ar saudosista, de quem jamais esquecerá a conquista da Libertadores em 2010, a maior glória de sua carreira, segundo ele mesmo. A busca por mais uma taça em 2019 segue em 24 de julho, no jogo de ida das oitavas, contra o Nacional, no Uruguai.

Aos 38 anos, o canhoto meia, dono de uma habilidade ímpar e de uma personalidade tão chamativa quanto, se prepara para atuar fora dos gramados. D'Ale ainda não confirma, mas tem feito curso para ser treinador e é um caminho possível quando terminar a carreira. Também não descarta assumir um cargo diretivo no Internacional, clube o qual tem contrato até o fim do ano.

Antes, espera que sua forma de jogar, de autêntico camisa 10, e seu profissionalismo fiquem como legado para os mais jovens do clube. D'Alessandro acredita que os grandes 10 como ele estão em extinção e alerta para a importância de ter um jogador desequilibrante. Para ele, vale mais perder jogando bem do que ganhar jogando mal. 

D'Alessandro Internacional Vitória Brasileirão Série A 30092018

Depois de tanto tempo, qual balanço faz da sua carreira e das coisas que conquistou?
Futebol me deu muito mais do que eu imaginava. Futebol me proporcionou coisas que eu não pensava. Quando era criança pensava em ser jogador profissional, assistia os jogadores na TV e falava: "quero estar ali". Futebol te abre tantas portas, tantas possibilidades de conhecer pessoas, o futebol te dá essa chance de viajar pelo mundo também, um monte de coisas que quando o atleta para pensar diz: "Pô, acho que não tem coisa melhor do que jogar futebol". 

É feliz com o que realizou?
E acho que um privilégio. Porque não é fácil, é difícil, e é um privilégio porque no lugar que a gente tem, muita gente quer estar. Então, a gente tem de cuidar disso, sempre tentei cuidar na minha carreira, sempre tentei me esforçar um pouco mais, sempre soube que poderia dar um pouquinho mais. Então é com esse pensamento que estou aqui hoje e vou continuar até o último dia.

Imaginava chegar tão longe?
O sonho que eu tinha sempre, como falei anteriormente era ser atleta profissional. Aí depois, a gente quer ganhar título, quer ser campeão e o maior sonho que eu tinha era ganhar a Libertadores, o título mais importante que nós temos aqui na América Latina. É um título que não tem comparação com nada, é uma coisa que está acima de tudo. E graças a Deus, consegui aqui no clube, no Inter, depois de ter ganho a Sul-Americana. Veio quase tudo junto, a Libertadores, com um time muito bom, um time experiente, com jogos complicados, difíceis, mas acho que um dos títulos mais importantes que com certeza tenho na minha carreira e a lembrança mais bonita. 

Como é sua relação com o Internacional hoje?
De onze anos aqui no clube, sendo um dos mais velhos, dos mais grandes no vestiário, a gente acaba assumindo coisas que são importantes para o grupo, para o clube. Nunca sozinho, sempre com outros líderes. Com outros jogadores. Mas é bom, é bom para desenvolver outras coisas fora do campo, conhecer pessoas, conhecer caráteres diferentes, personalidades diferentes, perfis de companheiros, administrar situações diferentes também. Então a gente vai entrando numa coisa que faz com que eu cresça como pessoa também, que eu possa entender mais meus companheiros, que eu possa me colocar numa situação aonde eu tenha de administrar também a força do vestiário, e isso é legal, eu gosto. Gosto porque isso, depois de tantos anos, te faz aprender e te dá mais maturidade, ajuda a ter muita mais experiências e conhecer pessoas, que é importante. 

D'alessandro Odair Hellmann Internacional Gremio 21032018 Gaucho

Por que há tantos treinadores argentinos trabalhando fora em grandes clubes e não há brasileiros?
Com essa minha experiência, é difícil falar de treinador porque não sou treinador ainda, mas acredito que tenha acontecido muito antes essa camada nova na Argentina. Entrou esse recâmbio, mudança de treinadores, aconteceu muito antes do que aqui no Brasil. No Brasil aconteceu agora, que estão entrando treinadores novos, jovens. Mesmo assim, muito treinador que hoje tem muito sucesso, falando de Simeone, de Pochettino (Maurício, treinador do Tottenham), não trabalharam na Argentina, por exemplo. O Pellegrino (Maurício, treinador do Leganés) está fora, o Bielsa (Marcelo, treinador do Leeds) que já tem... para mim o melhor de todos. Sou suspeito para falar dele porque para mim é o melhor de todos. Muitos deles não trabalharam na Argentina, mas se formaram. Todos que citei trabalharam com Bielsa, por exemplo. 

Qual significado tem sua foto com o Francescoli, um ídolo do River e campeão da Libertadores? Explica aquela imagem de você criança ao lado dele.
De Francescoli, eu era gandula e a gente tirava foto com todos. E a gente queria alguma coisa do Francescoli. Era impossível, então a gente queria alguma meia, algum calção, alguma coisa. E essa foto eu tenho em casa, ele é um cara que ganhou a Libertadores em 1996 com o River, eu fui gandula nessa Libertadores. O cara que representa muito o River e para o Uruguai, muito representativo. 

D'Alessandro Internacional River Plate Libertadores 08 05 2019

Você está perto de encerrar a carreira. Vê alguém pronto no Inter com capacidade para sucedê-lo?
Essa passagem de bastão, se eu citar algum nome, não quero colocar a pressão no guri, né, mas acho que tem sim jogadores que no futuro podem assumir tranquilamente. Por ser argentino eu vou falar Sarrafiore. É um guri que chegou agora, chegou ano passado, um cara que é novo, mas que está crescendo no dia a dia, entendendo ainda mais o futebol brasileiro, o futebol sul-americano, futebol internacional. E ele está crescendo, isso é importante.

Você acha que não há mais meias clássicos como antigamente? É o último 10 de verdade do futebol sul-americano?
Futebol mudou, né? O que se chama de futebol moderno hoje, muitas equipes jogam sem meia, sem enganche, acredito que nunca deixe de existir, nunca deixe de existir, mas obviamente, aqueles antigos 10 já tem poucos. Tem poucos em atividade, tem poucos jogando. Mas acredito que todas as equipes precisem de um, nem que seja para jogar 10, 15, 20, 50 minutos. Porque, não falando de mim, mas se lembrando de muitos aí, são diferentes, são diferentes, muito diferentes. 

Quem mais você poderia citar?
Eu assisti muito, poderia citar o Valdivia que está em atividade e entrou nessa discussão também. O Montillo que está na Argentina, que também é aquele estilo. O Buonanotte, que está jogando na Universidad Católica do Chile, é um cara que também tem aquele estilo antigo. Tem muitos por aí e a gente vai levando esse legado, né? A gente acha que o futebol evoluiu porque o futebol mudou regras, mudou regulamento, mudou dinâmica, mudou estilo, mudou, tem coisas novas, tem esquemas novos, hoje se fala muito em 4-3-1-2, 4-1-4-1, mas a gente muitas vezes esquece da essência, do que é jogar futebol. 

O que pode ser feito para melhorar e não perder isso?
Quando a falo a gente, é nós todos, do mundo do futebol, porque eu acho que o resultado passou a ser muitas vezes muito mais importante do que o caminho que a gente tem que fazer para ganhar, que esse caminho de valorizar um pouco mais, um pouco mais tentar jogar bem, ter uma ideia mais clara e deixar o resultado de lado. Antes era assim, era muito assim. Eu pelo menos lembro na minha época que nunca fui campeão nas categorias de base. No River só queriam que a gente jogasse bem, só queria que a gente parasse a bola, colocasse a bola debaixo da sola e jogasse no chão. Só isso. E a gente aprendeu assim. Hoje muitos continuam com essa ideia, mas outros não, são estilos de jogo. 

Você quer deixar um legado?
Tudo vale no futebol, cabe a nós continuar levando essa ideia mais adiante. Tem treinadores que continuam com isso, tem treinadores que misturam os dois estilos, mas acho que a discussão é mais profunda, a gente não tem que achar que o resultado é o mais importante. Óbvio que o resultado manda no futebol, óbvio que se tu jogar bem e perder, as críticas tu vai ter, mas eu prefiro jogar bem e perder a jogar mal e ganhar. Porque se você jogar mal e ganhar no futebol não vai me levar a ganhar um título. E se jogar bem, trabalhar bem e ter uma base boa, eu vou perder alguns jogos agora, mas de repente com uma ideia de jogo, lá na frente posso conseguir alguma coisa. 

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