Como o departamento médico do Flamengo ajudou o time a ir à final e foi exaltado pelos jogadores

Trabalho de recuperação fez com que atletas voltassem em tempo recorde a ponto de participar da histórica classificação contra o Grêmio no Maracanã

Ao término do primeiro jogo da semifinal da CONMEBOL Libertadores entre Grêmio e Flamengo na Arena em Porto Alegre, uma dose de preocupação tomou conta do lado rubro-negro. E não apenas pelo placar de 1-1 na partida em que exerceu pleno domínio. Dois importantes jogadores deixaram o estádio lesionados e já como dúvidas para o jogo de volta: Filipe Luis e De Arrascaeta. 

A situação do uruguaio era mais preocupante e foi confirmada no dia seguinte, com a notícia de que ele teria de passar por uma cirurgia no joelho esquerdo para corrigir o menisco e o ligamento colateral medial. Faltavam apenas 19 dias para o jogo da volta e parecia improvável um retorno a tempo. As primeiras notícias davam conta de que estaria fora. Já Filipe sofreu uma entorse também no joelho esquerdo. Não precisava de cirurgia, mas também corria risco de perder a decisão. 

Para piorar a situação do Flamengo, faltando dez dias para o duelo contra o Grêmio, o lateral-direito Rafinha teve uma fratura na face no duelo contra o Athletico Paranaense pelo Campeonato Brasileiro. Também passou a ter participação improvável. Foi operado no dia 14 de outubro, faltando nove dias para o jogo. 

Na sala de cirurgia, Rafinha temeu pelo pior e achou que não jogaria. Mas, por ironia do destino, foi dele a cena que passou desapercebida por muitos, mas representou um pouco da histórica goleada de 5-0 sobre o Grêmio construída com Rafinha, Filipe Luis e Arrascaeta em campo. Assim que o árbitro apitou o fim da partida, os reservas e profissionais da comissão técnica do Rubro-Negro invadiram o gramado do Maracanã para comemorar o retorno à final da Libertadores após 38 anos. Rafinha, que jogou de capacete, pegou o médico Márcio Tannure nos braços e passou a jogá-lo para o alto. Chefe do departamento médico e de performance do Mengão, Tannure era o símbolo da incrível recuperação. 

Há 17 anos no Flamengo, o médico chefia a equipe responsável por aniquilar prazos e fazer com que o técnico Jorge Jesus tivesse todos seus principais atletas à disposição para atropelar o fortíssimo Grêmio de Renato Portaluppi. Inclusive Diego, que voltou a atuar nesta partida menos de três meses após passar por uma delicada cirurgia para corrigir uma fratura com lesão ligamentar no tornozelo esquerdo. Quando machucou no jogo de ida das oitavas de final contra o Emelec no Equador, a expectativa era de que voltasse a atuar só em 2020. 

Flamengo

Abaixo, Tannure conta detalhes do trabalho que vem sendo realizado pela equipe do Flamengo e os bastidores da força-tarefa para recuperar os jogadores a tempo de fazerem história contra o Grêmio. Ele destaca o reconhecimento dos jogadores, que foram unânimes após a classificação em creditar à recuperação ao trabalho dos profissionais. Agora, o objetivo é deixar todos à disposição de Jesus para encarar o River Plate na grande final única, no dia 23 de novembro. 

O que há em termos de estrutura no departamento médico do Flamengo e o que mais tem colaborado para os resultados que se destacaram agora? 
Hoje, o departamento médico, de performance, que envolve área de preparação física, fisioterapia, médica, nutrição, fisiologia, oferece ao Flamengo as melhores condições, a melhor estrutura, de nível europeu, nível de melhores times do Brasil e América Latina, senão o melhor. E a gente vem melhorando a cada ano, para que o Flamengo tenha o mesmo nível de padrão que vem tendo a nível de contratação de jogadores, administração do clube, em todas as áreas. Nesto sentindo, acho que o que temos de melhor, por incrível que pareça, tirando toda essa estrutura física que não fica devendo a nada em termos de Europa, é a metodologia, comunicação e integração entre as áreas. 

Conte um pouco mais da evolução desse trabalho.
Estou no Flamengo há 17 anos e observei que no Brasil nos clubes as áreas são multi disciplinar mas não são ultra disciplinar, que sempre se conversam. E como gerente, minha função é criar uma linguagem única. A comunicação é o que temos de melhor, o que tem nos ajudado nesse trabalho. Todo treino a gente se reúne antes, todas as áreas, para entendermos qual será o treino, qual será a carga, para sabermos qual jogador está apto. A gente não estabelece limites. As áreas estão sempre se falando. Isso é o mais importante e a gente vê como grande diferencial.

Os resultados apareceram com mais força a partir de qual momento?
A gente vem implementando isso há três, quatro anos. Não à toa que o Flamengo nos últimos três anos foi o clube que teve menos lesão aqui no Brasil. É a consolidação do que a gente vem buscando incansavelmente. E nossa função é colocar a maior quantidade possível de jogadores à disposição em menor tempo possível. Esse reconhecimento dos jogadores, da comissão técnica, é uma amostra de que estamos conseguindo alcançar nossas metas. A gente já vinha fazendo um trabalho bom, mas talvez não estivesse tendo a resposta em campo que a gente merecia, que esperava. E hoje cada vez mais a gente aprimora nossos métodos, vê o que tem de melhor, e cada ano temos melhorado. E o grande momento é o reconhecimento público dos atletas, do nosso treinador e até de outros clubes do Brasil que nos procuram.

O que significa esse reconhecimento público dos jogadores?
Sempre digo que por trás de cada atleta, existe um ser humano. Como por trás de cada profissional, existe também. E todo profissional fica feliz de ter seu trabalho reconhecido. A gente fica feliz, não esperava toda essa repercussão. Mas o mais importante é ter esse reconhecimento dos atletas, a confiança que a gente já vinha tendo, mas desta vez se externou. A gente não conseguiria esses ótimos resultados sem a adesão, confiança e profissionalismo dos jogadores. Eles confiam no que foi traçado, nas metas. Outro ponto muito importante é do treinador, o Mister Jorge Jesus, que também confia. A gente trata o atleta, mas quem escala é o treinador. É importante que o treinador também tenha essa confiança, compre a ideia, porque se ele não está seguro e óbvio que envolve muita coisa de colocar um atleta e ele pedir para sair em 15, 10 minutos, que é um risco que a gente corre. O preparador físico do Mister foi uma peça muito importante nessa engrenagem. Ele veio algumas vezes ao Brasil, entende a cultura brasileira, trabalhou com diversos jogadores, e ele foi um elo muito importante para o que a gente vinha aplicando.

O Jesus já deixou claro que não é adepto de poupar jogador. No que isso interfere no trabalho de vocês, o que mudou?
Sempre com a chegada de um novo treinador, tem uma oportunidade de aprendizado, conhecimento. Ele com certeza tem nos ensinado muito, como vários outros. Eu vejo como oportunidade, intercâmbio, de um treinador europeu. Mesmo porque com muito o que usei aqui trouxe da Europa, da Premier League, da Alemanha. Eu vi de uma maneira muito satisfatória. De aprendizado, e estar mostrando o trabalho que a gente vem fazendo no Flamengo. Acho que isso é notório também, que ele faz questão de exaltar aqui nosso trabalho. Isso nos deixa feliz, porque é um treinador experiente, já trabalhou em grandes centros, com os melhores profissionais, então é importante ele reconhecer nosso trabalho. Ele entendeu que o controle de carga, individualização é importante, de jogar todo jogo e fazer a manutenção disso nos treinos, para a gente jogar todos jogos sem estar poupando. Foi uma estratégia que adotamos já no ano passado, sem poupar. Foi até motivo de crítica por muitos. Exatamente por a gente ter essa confiança no trabalho, por a gente saber através dos dados, o risco. Claro que não vamos evitar tudo, mas quanto mais informações você tem, mais fácil para tomar as decisões, que são sempre em conjunto. 

O departamento acabou tendo grande destaque antes da semifinal contra o Grêmio pela recuperação de jogadores lesionados. Explique a situação do Rafinha, e o trabalho feito para ele retornar. Ele poderia não ter atuado?
A gente tem um departamento médico de performance, que não é só comigo. O sucesso dele se deve inicialmente ao primeiro atendimento dele em Curitiba, um médico que estava no jogo. Já conseguimos fazer todos os exames no mesmo dia. Em posse disso, já programamos a cirurgia dele. e no dia seguinte ele estava aqui para operar. Ele teve uma fratura de face, que não é simples. Tem de lidar com traumas. Realmente ele tinha esse receio, por isso é importante ele ter a nossa confiança, porque eu falava para ele que ele tinha condição de jogar esse jogo. Eu tinha dito que estava bem seguro para ele jogar, e a partir disso ele se sentiu seguro também. E a vontade dele de estar presente. 

Rafinha breca Everton do Grêmio

O mesmo aconteceu com o Arrascaeta, que teve um problema relativamente mais sério. 
Ele realmente, por mais que a gente acreditasse que teria possibilidade, surpreendeu a todos. Era uma dúvida porque cada um reage de maneira diferente. Ele nunca tinha passado por uma cirurgia, então não tínhamos um histórico de como ele reagiria. Mas nas oitavas de final tínhamos um histórico de uma lesão muscular bem complexa que ele teve, e conseguimos voltar bem antes do tempo, então o corpo dele deu uma resposta positiva de regeneração. A gente conversou, eu acreditava, pelo menos dele ser relacionado, não de começar do início. Porque existe diferença de a gente liberar clinicamente, e ele estar liberado para jogar. Porque o jogo exige muito, um jogo desses. E ele mostrou, quis, acreditou na gente. A gente avaliava dia a dia, mas a gente colocou como meta esse jogo, não sabendo se conseguiria ou não. E ele jogou 18 dias depois da cirurgia, o que ainda não vi no Brasil algo parecido. Ele voltou até antes, dois, três dias antes para treinar, para termos a segurança. O caso dele por um lado é ótimo, por outro é ruim porque as pessoas sempre vão cobrar mais por recuperação nesse prazo. E nem sempre vamos conseguir. Claro que esse é nosso desafio, o que sempre queremos, mas vai ter sempre essa expectativa, e a gente não pode afirmar, porque cada um reage de uma forma. 

Arrascaeta Flamengo 03 10 2019

Por fim, a situação de Diego: como foi possível voltar neste tempo, depois de terem dito que ele não jogaria mais em 2019? Também tinha projetado esse retorno para esse jogo?
Tinha mesmo esse risco, porque a literatura fala em torno de cinco a seis meses para retornar aos campos. Foi uma lesão grave, a gente teve que fazer outro procedimento para colocar parafuso, teve mais carga. A gente construiu essa meta junto, não divulgamos. Eu estive na casa dele depois da cirurgia. Não vamos falar para ninguém no Flamengo, para não criar expectativa, mas vamos criar esse pacto entre a gente de ter como meta. Acho importante ter essas metas, sempre crio isso, mesmo que não alcance, senão fica um tempo muito longo, se você não tiver uma meta, ele vai se perder nesse caminho, se desestimulando, ficando mais longe do gramado. E quando põe a data, é para ele ficar cada vez mais perto da data. O dele foi muito rápido, foi mais surpreendente do que os outros. Já davam como certo ele não jogando, e ele acreditou nisso desde o início. Mérito muito para o Diego, É exemplo de profissional, ele sempre acreditou. Ele montou academia em casa. Buscou, sempre quis, e depende-se muito do atleta. Não são todos que têm essa força mental, até física. Foram três turnos, ajustamos a dieta dele, uma força-tarefa, ele aderiu a tudo. Sempre acreditou. E temos de tirar o chapéu para ele, porque ele deu um exemplo para a gente. 

Diego lesão Emelec Flamengo Libertadores 24072019

É possível fazer uma projeção do trabalho até a final contra o River Plate? Como será esse período de preparação?
A gente vai fazer o mesmo trabalho. Tem dado certo, resultado, a gente não pode mudar agora em função de um jogo. Lógico que não é mais um jogo, é a final. O que talvez requer mais sacrífico, como foi na semifinal. Se não fosse um jogo tão importante, talvez não tivéssemos acelerado, teríamos mais tranquilidade. Mas o trabalho será o mesmo, porque a gente só está na final pelo trabalho que vem sendo feito. Se por um acaso tiver que fazer algum esforço a mais, é o que será feito, não só por nossa parte, como comissão e jogadores. É manter seriedade, pés no chão. E sempre tentar colocar os jogadores o mais rápido possível à disposição do treinador e é o que vamos continuar fazendo. 

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