Capitão do River Plate detalha fórmula do campeão da Copa Libertadores: 'É vencer até no treino'

Em conversa com copalibertadores.com, Leonardo Ponzio falou sobre os segredos e intimidades do time multicampeão comandado por Marcelo Gallardo

O suéter com gola alta faz com que ele pareça um intelectual, mas ele é um volante raçudo. Esclarece que sempre relutou em conversas com alguém sobre seus problemas pessoais, embora precisasse. Quando era criança, no Newell's, adaptou-se ao ritmo de capitães como Julio Saldaña e Sebastián Cejas, e agora se esforça para entender a geração de garotos como Exequiel Palacios, de 17 anos. Não gosta de invadir um quarto de um companheiro para quebrar a cabeça sobre uma partida. No entanto, nos treinos táticos na véspera dos jogos importantes, se preocupa muito que a concentração de todos seja extrema. 

Embora nunca tenha feito terapia, com 37 anos e mil concentrações, tem a psicologia na palma da mão. A proposta, feita de uma cadeira de quiosque para outra, com os pés no gramado do campo principal de treinamento do River Plate (ARG), é de pensar na construção da cabeça de um time campeão, o atual campeão da Copa CONMEBOL Libertadores.

Não há necessidade de maiores apresentações: Leonardo Ponzio fica quarenta minutos para explicar como o River venceu seis torneios internacionais nos últimos cinco anos, quando antes tinha cinco copas em toda sua história. 

Como você dorme nas noites antes de um jogo importante?
Bom, eu digo à minha família: "Durmo melhor na concentração do que na minha casa". Porque descanso sozinho, sem ter de cuidar dos meus filhos. Descanso. Não disputo o jogo do dia seguinte durante a noite. 

Como consegue isso?
Quando treino, estou pensando no jogo. E, quando saio do campo, nosso melhor habitat, deixo um pouco de lado. Eu tento não ficar tão envolvido em situações de estresse.Mas, claro, issó se entende ao longo do tempo. 

E quando você era garoto?
Quando eu era criança, talvez não percebesse isso. Vivia intensamente. Fazia tudo na mesma velocidade: treinava, jogava da mesma maneira, não pensava em nada, nem no outro, nem em outra partida. 

Como é ser o capitão desse time?
Temos uma química de grupo que realmente gostamos. Quando chega alguém novo, ele vê que gostamos dos duelos, que nos sentimos fortes, que temos respeito. Tentamos incutir isso. No dia a dia, na competição, tão longa, não temos como ver isso. 

Por quê?
Nos últimos, brigamos nos torneios nos segundos semestres. Nos primeiros, não jogamos tão bem. Os exemplos são: chegar numa final, entrar em uma Copa ou ganhar a Copa Argentina. Nos campeonatos locais, no segundo semestre, começamos a competir. É por isso que acabamos não indo tão bem. É também uma questão de estresse. Por jogar quarta, domingo, quarta e domingo.

AFP Leonardo Ponzio River Plate Copa Libertadores

Como conviver com esse estresse?
Durante a Libertadores, você não percebe. Quando acaba, você respira, cai a ficha. Hoje começamos a assimilar o que vivenciamos em dezembro. Quando você está jogando, é um atrás do outro, então você vive, mas não percebe isso. É o indício de que o estresse e a intensidade não pesam em você no momento. 

Como se estivesse incosnciente naquele momento. 
Sim, a inconsciência sobre a responsabilidade ajuda. Quando você joga semifinal ou final, o inconsciente joga mais livremente. Mais descontraído. É você! Quando você assume responsabilidades, as coisas mudam. 

Para todos os jogos importantes, a concentração tende a ser vários dias antes. Isso funciona?
É um hábito de costume. Já sabemos que jogamos as oitavas, quartas ou semis e temos um refúgio. O grupo está esperando por você. Eu disse, para os treinadores, que há momentos extremos em que você se sente envolvido com aqueles que vão para a batalha. A batalha é uma maneira de dizer, mas está rodeado por essas pessoas. Mesmo se você não conversa sobre futebol, você está com aqueles que irão te defender. 

Como você convive com os mais jovens?
Tento não ser invasivo. Não faz sentido eu entrar no quarto de um garoto que está conversando com a namorada. Mas o dia em que o Marcelo (Gallardo, técnico do River), faz o treino tático, na véspera do jogo, eu estou lá falando. Para dizer aos colegas: "Se ele nos diz isso, é por alguma razão". E se você conhece o adversário, melhor. Quando chega a hora de relaxar, não me envolvo. Deixo cada um ficar no seu mundo. Depois, temos 45 minutos antes do aquecimento e aí retomamos. 

Fez terapia? 
Eu estava sempre relutando em falar com alguém. Mas eu precisava disso. E com a Sandra (Rossi, especialista em neurociência da comissão técnica do River), eu tenho um relacionamento muito amigável para chegar e falar. Se você viver falar comigo, talvez eu não fale com você. Mas eu posso ir até você. Com o tempo, vai se fazendo terapias com o corpo. Eu sei que o corpo funciona graças à cabeça. Mas eu coloco mais ênfase em melhor fisicamente, que é a tônica da minha carreira. Mas ter alguém para ouvi-lo ou dar algumas dicas em momentos de estresse é ótimo. 

Aprende-se a ser um capitão?
Sim, você aprende. Tive muitos colegas que me serviram de referência. Lá fora, tinha o Ratón (Roberto) Ayala e Gabi Milito. Aqui aprendo com Ariel Ortega. Depois, treinadores como Ameyda, Gallardo ou Simeone. 

E no começo da carreira?
Estava com Saldaña e Cejas. Mas nessa etapa foi o contrário. Lá, tive que me adaptar aos capitães. Agora eu tenho que receber os garotos.

Como se prepara para isso?
O dia a dia faz você saber mais como você é. Pela idade, talvez, você não faz merda. Nos educamos por exemplos. Se passarmos um bom exemplo, o garoto estará comigo. Se pregarmos com mau exemplo, o menino vai olhar para mim de lá e, certamente, quando eu lhe disser algo, vai me fazer pouco caso. Pinola tem 36 anos e possi um método de treinamento que dá exemplo aos outros. Você não vai me ver assim, mas vai me ver fazendo outra coisa. Com Scocco e Pratto, a mesma coisa. Armani, um cara quieto, que está no auge e não muda como é. Lux que veio da Europa, é da casa, ganhou tudo e não se importa de ser reserva.

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O que lembra de seus primeiros vestiários? 
Houve uma combinação de tudo. Tinha o fator econômico, que não era importante naquela época. Tinhamos 18, 19, 20 anos. Às vezes treinamos sem roupas ou os treinos foram suspensos por diferente razões e com uma diretoria que não ia bem. 

Na Espanha?
Eu tive duas fases. Na primeira, jogava com caras muito bons como David Villa, Savio, Galleti, Cani, os dois Milito. Estávamos todos crescendo na Europa. Íamos todos de carro. Estávamos bem completos. 

Aí veio para o River.
Com um vestiário que mudava muito. Com muitas novas contratações. Tinha Ortega. Com Gallardo eu nunca cheguei a estar. Tinha Loco Abreu. Havia muita alegria, mas os resultados não vieram e, neste clube, quando os resultados não aparecem, é complicado porque você encara uma crise de todos os lados. 

Retornou a Zaragoza. 
Em um vestiário que tinha 11 nacionalidades. E aí você dá o seu melhor. O clube estava mal. Não foram bons anos para permanecer. 

E de lá para o River de novo. 
Sim. Tínhamos um vestiário que queria brilhar. Gente que veio para isso, como Cavenaghi, Chori (Dominguez), David (Trezeguet). A verdade é que nos reunimos para atingir o objetivo. Depois disso, os grupos foram se formando. Fer e Chori foram embora. David ficou um pouco mais. Mas fomos formando algo com Negro Sánchez, os gêmios Funes Mori, com Kranevitter, Pezzella. Hoje é o que sustenta tudo isso. Esse grupo que começou com Cavenaghi e Barovero entrou no caminho certo. 

Como você definiria esse vestiário atual?
Posso dizer que venho aqui para treinar e estão todos felizes. Você vê outros grupos com pessoas que querem treinar e ir embora. Aqui cada um pode falar ou não, mas há muita vontade de treinar. 

Fala-se de futebol no vestiário?
Você assiste muito futebol. Talvez não há conversa sobre tática. Os mais jovens veem muito. Um Mayada, um De La Cruz, Palacios, Moreira - que não está mais-, sabe onde todos jogam. 

Isso ajudar a ser uma equipe vencedora?
Aqui a gana por vencer é até no treino. 

Como foi a preleção antes de jogar a final da Libertadores contra o Boca?
A viagem começou bem relaxada porque pudemos ir com nossas famílias. Voamos com uns dez parceiros, nossos filhos ou nossas companheiras. Os outros, por outro lado, não podiam devido a um problema de cota e pela demora de se registrar. Foi um bom voo. Necessário. Chegaríamos às férias com um mês sem poder vê-los. Veio pais e mães, como de Montiel. Poder compartilhar isso era algo sonhado. Não foi uma viagem de estudo, foi uma final que jogamos muito. Isso marcou algo. Viemos em uma privacidade muito agradável com nossas famílias. E então, chegamos ao momento em que treinamos na Casa Branca, alojamento do Real Madrid. Apesar de não estar em nossa casa, porque é a grande mancha negra de tudo isso, estávamos fazendo algo diante do mundo. Nós tínhamos muita confiança. Sabíamos que queríamos jogar. Não cogitamos não jogar. E foi o que foi demonstrado ao longo do jogo. Porque poderíamos estar perdendo em um momento, mas nunca paramos de jogar.

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