Alisson se espelha em Renato e sonha com mais gols decisivos para o tetra do Grêmio na Libertadores

Em entrevista exclusiva, atacante conta como trajetória do treinador o inspira para ficar marcado na história do clube. Ele sonha com a Copa

Eu quero ser Renato Portaluppi. Não há quem ouse dizer isso no Grêmio. É uma heresia. Mas "ser Renato" tem outro ângulo quando a sugestão parte do próprio ídolo imortal. O técnico gremista hoje torce para fazer de Alisson uma espécie de Renato na história do Tricolor gaúcho. 

Explica-se. Assim como seu treinador, Alisson tem ficado marcado por gols decisivos, em pouco menos de dois anos vestindo a camisa do Grêmio. Foi dele, por exemplo, o tento que colocou o Imortal na sua terceira semifinal de CONMEBOL Libertadores consecutiva. Já havia marcado nas oitavas e quartas do ano passado. Passou a ser chamado de talismã pelos torcedores. Confiante, Alisson quer manter a sina.

"(Renato) É um cara que sempre brinca que não fez tantos gols, mas os poucos que ele fez foram decisivos. Acho muito interessante quando ele fala isso, eu tento pegar isso também. Eu me sinto assim também, do que ele sentiu (risos). E eu vejo que realmente é isso, que sou um cara de não fazer tantos gols, mas os gols que estão saindo aqui no Grêmio, e saíram no Cruzeiro, são importantes e eu tento pegar isso também", afirmou Alisson, em entrevista exclusiva ao CopaLibertadores.com, quando arriscou até um ensaio com as faixas da Geral (veja aqui todas fotos).

Ensaio especial Alisson

Se o clube gaúcho entrará em campo na próxima quarta-feira contra o Flamengo para decidir um lugar na final única de Santiago, muito se deve ao espírito decisivo do atacante, que já marcou quatro gols pelo clube na maior competição da América. O mesmo número de Renato, campeão como jogador em 1983 e como técnico em 2017. 

Ainda há uma longa distância, claro, a comparação é evidentemente guardadas as proporções, até porque Renato foi protagonista da primeira conquista do Grêmio na Libertadores, título que Alisson ainda não tem. Mas a ideia do treinador pode ganhar forma nas semifinais. Em 1983, o treinador marcou nesta fase o gol decisivo contra o Estudiantes, na Argentina. O empate por 3-3 garantiu o time na final contra o Peñarol. 

Em 2017, Renato teve uma relação semelhante com Luan, que por coincidência vestia a mesma camisa 7 que ele consagrou. Na época, o treinador brincava com o jogador sobre as inevitáveis comparações e acabou motivando-o para ser o melhor jogador da competição e liderar o Grêmio para o tricampeonato. Fará o mesmo com Alisson desta vez?

Nesta entrevista, o atacante conta como se prepara para mais um grande desafio pelo Grêmio, como foi a escolha de trocar o Cruzeiro pelo clube, esmiuça a relação com Renato e prevê os perigos do Flamengo, o obstáculo antes da grande final. Confira o papo com o xodó da torcida e do técnico Renato Gaúcho.

Quando aceitou o Grêmio, acreditava que a adaptação seria tão rápida?
Olha, até a decisão foi muito rápido, lembro que estava quase voltando para Minas, foi dia 31 de dezembro, quando me empresário me ligou dessa situação. Foi muito rápida, sentei com minha esposa, vimos o momento que o Grêmio está vivendo, ganhando muitos títulos. Foi uma decisão bastante consciente, queria poder fazer parte desse projeto também. A questão da adaptação achei que ia sentir um pouco mais. Vim com esse pensamento de que iria demorar mais, até porque passei minha vida toda em Minas Gerais. Mas fui muito bem recebido pelos jogadores, pelos funcionários do clube, isso me deixou muito à vontade. Já no primeiro ano ter conquistado dos títulos, o Gaúcho, depois de um tempo, e a Recopa, fez com que eu pudesse me adaptar mais rápido. Facilitou tudo.

Teve algo que mais pesou, uma conversa com alguém?
Olha foi tudo muito rápido. Foi mais da minha parte. Até por ter vivido muito tempo no Cruzeiro, ter um carinho especial, sou muito grato. Eu queria algo novo, viver um clube novo. Esse projeto de clube vencedor, conquistando títulos, jogando um futebol que tem encantado o Brasil. Jogado com jogadores daqui. O Marcelo Oliveira, quando subi no Cruzeiro, foi um cara que me ajudou muito. Ele falou comigo, disse que era para eu vim fazer parte desse grande projeto. Também ter jogado com o Luan, em todas as seleções de base, isso com certeza me ajudou a tomar essa decisão. 

Após dois anos, já consegue entender por que o Grêmio consegue fazer com que jogadores que não estavam bem em outros lugares passem a brilhar no clube?
Parte muito do Renato. Ele é um cara que conversa bastante com o atleta, foi atleta também, entende esse lado do jogador. Dá bastante confiança para o atleta, isso sem dúvida facilita a ter mais confiança. A gente sabe que o futebol depende disso. O ponto principal é o Renato fazer o jogador voltar a render o que já tinha rendido. 

Como você definiria o Renato?
Sou um cara que, como falei, privilegiado por trabalhar com ele. Cara que sempre quer vencer, ganhar o tempo todo, deixar sua história no clube o tempo todo. É um cara em quem me inspiro muito. Aprendi muito, venho aprendendo muito, sou muito fã. Que eu possa continuar trabalhando com ele muito tempo e que a gente possa continuar conquistando títulos. 

As opiniões dele são recebidas de forma diferente por ele ter sido tao ganhador aqui no clube?
Sim, por você ver que ele quer nosso bem, o bem do clube. Na hora de elogiar, ele elogia, na hora de cobrar, ele cobra. E a gente tenta fazer o que ele nos pede. Tem um peso muito forte, cara que já conquistou tudo como jogador e agora como treinador. Espetacular. A gente tenta pegar as coisas boas que ele nos ensina para colocar no dia a dia.

Por ele ter jogado na sua posição, você pega mais coisas ainda?
É um cara que sempre brinca que não fez tantos gols, mas os poucos que ele fez foram decisivos. Acho muito interessante quando ele fala isso, eu tento pegar isso também. Eu me sinto assim também do que ele sentiu (risos). E eu me vejo que realmente é isso, que sou um cara que de não fazer tantos gols, mas os gols que estão saindo aqui no Grêmio, e saíram no Cruzeiro, são importantes e eu tento pegar isso também.

Alisson comemora gol pelo Grêmio

Ficar marcado como o Renato ficou, com gols decisivos em caso de título é algo que passa sempre pela sua cabeça?
Essa questão de ficar marcado por um gol, todo jogador quer ficar marcado, entrar para a história do clube. Mas ficaria mais feliz se for como a classificação contra o Palmeiras. Independente de fazer gol ou não, fica marcado o grupo. O objetivo principal é esse, de ajudar seja com gols, assistências, de alguma mineira. Meu foco é ajudar para chegar às finais e conquistar. 

Já aconteceu de sonhar com um gol desses?
Ainda não passei por isso (risos) de sonhar. Mas todos nós sempre passa na mente, fazer gol em final de Libertadores, conquistar um título assim tão pesado, título que almejo muito em conquistar. Sempre passa pela cabeça. 

O que significa a Libertadores?
Significa muita coisa, porque quando era mais novo, poder ver, assistir aqueles clubes disputando e conquistando títulos pela grandeza da Libertadores. E é um dos títulos que não conquistei ainda. Sou privilegiado de dizer que conquistei Brasileiro, Copa do Brasil, e agora tem a Libertadores. Um grande clube, copeiro, que sempre está disputando, terceira semifinal seguida. É de grande importância, um título que almejamos muito. 

Qual a imagem mais marcante que tem da Libertadores?
Cara, foi Cruzeiro e Estudiantes, que o Henrique faz um gol. Eu estava na base ainda. O Cruzeiro sai ganhando na Argentina, em 2009, mas acabou que o Cruzeiro perdeu o título. Por o Henrique ser um cara que joguei e eu ter um carinho enorme, essa imagem ficou marcada para mim. 

Quem era as inspirações como jogador?
Era o Ronaldo Fenômeno. Esse fazia coisas incríveis, era um cara muito decisivo. Você não via ele fazendo tanta graça, mas era muito objetivo, eu sempre gostava de ver ele jogando.

E hoje em dia?
Eu sou muito fã do Messi. É um cara que sempre está decidindo, faz o simples, mas bonito. Faz com uma facilidade muito grande. Eu me inspiro muito, vejo como exemplo, gosto muito de ver ele jogando. E também um brasileiro que é o Neymar. Não tem o que se falar dele, tem uma qualidade também que eu me inspiro. 

Messi é melhor que Cristiano Ronaldo?
Sim. 

Por quê?
Cristiano Ronaldo também é um fenômeno, por isso estão sempre disputando a Bola de Ouro. Mas o Messi, por ele ser mais objetivo, fazer as coisas mais simples, gosto mais do Messi. 

Dos gols que você fez decisivos, principalmente em Libertadores, quais são os preferidos?
Eu falaria dois. Contra o Estudiantes, nas oitavas de final do ano passado, que foi no último lance ali, estávamos fora da competição. Eu fiz de cabeça, mas ia bater a falta, e o Luan falou para eu ir para a área, acabei fazendo o gol. Mas o que realmente ficou marcado foi o desse ano contra o Palmeiras. Muitas pessoas já tinham colocado o Grêmio fora. E foi um gol da virada, da nossa classificação, e isso com com certeza tem um peso especial para mim. 

Esses dois gols fizeram você sentir realmente porque o Grêmio é chamado de Imortal?
Olha, eu lembro que nesse jogo contra o Palmeiras o Renato falou no vestiário que se a gente tomasse um gol, precisaríamos ter muita uma mente muito forte para poder reverter. Então foi tão natural aquilo dentro de campo, que na hora que tomamos o gol a gente não se abalou, ao contrário, a gente cresceu na partida. Então é isso, todos que têm o privilégio de vestir a camisa do Grêmio, não se abala em nenhum momento, por isso tem a questão do Imortal. A gente vai lutando até o fim, até buscar o resultado, como foi contra o Palmeiras.

Tem algum clube no Brasil que se equipare a isso?
Eu joguei em três clubes. Mas acho que o Grêmio tem o peso muito especial, é muito difícil ver um clube assim.

O que um atacante precisa para atingir o nível que você considera bom para sua posição?
Acho que tem de trabalhar bastante, além do trabalho, tem de ter bastante humildade, reconhecer que sempre tem de melhorar, que nunca está bom. Sabemos que tem a fase boa, a fase ruim. Não se sentir o melhor quando a fase estiver boa, nem o pior quando vem a fase ruim. Mas a gente sabe que o trabalho do dia a dia, o que você faz fora, o tanto que você se cuida, isso faz com que o atleta possa alcançar coisas boas no futebol.

Ensaio especial Alisson

E em termos técnicos, o que um atacante precisa ter?
Acho que é a reposição. Você fica batendo lateral com lateral toda hora, área a área. O futebol ficou muito assim. Você olha o futebol hoje na Europa, todos fazem assim. Você pega o time do Manchester City, o Sterling, o Sané, sempre fazem isso. Taticamente, hoje o futebol, o atleta precisa aprender muito. O futebol exige muito.

E no exercício de auto-crítica, o que você ainda precisa evoluir?
Olha, todo dia a gente tem que melhorar algo. E venho fazendo isso, evoluindo diariamente. Venho procurando melhorar naquilo que vou fazer dentro de campo. Finalizações, às vezes entrar na área. Treinar um pouco mais. Vou melhorando a cada dia e assim vou conseguindo chegar lá, a gente sabe que é muito difícil. Mas vai treinando.

O que você e o grupo pensam sobre o Flamengo?
A gente sabe que é uma equipe com muitos jogadores de qualidade, vem vivendo um grande momento, com resultados, jogadores de seleção. Equipe muito forte, de uma grande torcida, sabemos a qualidade deles. E que a gente possa continuar fazendo o nosso, com pés nos chão, sabendo que vamos pegar uma grande equipe. As quatro equipes que estão aí agora têm condições de disputar uma final de Libertadores. 

Quais os principais perigos que o Flamengo oferece?
Ali na frente eles têm muita qualidade. Em geral, uma equipe muito bem treinada. Contratou muitos jogadores de nível de seleção. A gente sabe da qualidade que eles têm ali na frente. Que a gente possa estar bem atento com tudo. 

A eliminação na Copa do Brasil trouxe algum ensinamento? Pode ajudar vocês de alguma forma?
Olha, a gente sentiu bastante. Por como foi. A gente ter conseguido o resultado dentro de casa, ter levado para lá o resultado. E quando acaba li, você sente muito. Mas a equipe reagiu muito bem logo em seguida. Fica, sem dúvidas, os ensinamentos, entrar mais focados. A questão da concentração é muito importante. 

O Flamengo não chegava a uma semifinal de Libertadores há 35 anos. O Grêmio chegou nas três últimas. Isso pode dar alguma vantagem a vocês?
De forma alguma. São duas grandes equipes, as duas querendo o mesmo objetivo, chegar à final. O Flamengo tem muita qualidade, fez um investimento muito grande para chegar nisso. O Grêmio foi um dos únicos que chegou nas três. Vão ser dois grandes jogos e os dois podem chegar. 

Fala-se muito no quarteto do Flamengo. Mas o Grêmio tem você, Jean Pyerre, Everton e o Tardelli. Como definiria a linha de frente do Grêmio?
Cara, é bom você jogar com jogadores de qualidade. Pega o Jean, o Everton, agora o Tardelli. A gente tenta fazer o que o Renato nos pede, todos têm muita qualidade para fazer, e a gente vem fazendo. Que a gente possa continuar fazendo, crescendo como equipe e sem dúvidas será um grande jogo, com grandes jogadores.

Falou-se muito em quem joga o melhor futebol do Brasil. Qual sua opinião: Grêmio ou Flamengo?
Aí eu deixo para o meu chefe, deixo para o Renato, ele e o Jesus eles conversam, se entendem aí (risos). 

O que representaria ser campeão da Libertadores?
A realização de um sonho. Ainda mais no clube e os companheiros que eu tenho. Seria um sonho.

A derrota na semifinal do ano passado serve agora como combustível, como disse Geromel?
Foi doloroso demais. Depois do jogo contra o River, a semana acabou para nós. Todo mundo de cabeça para baixo. Nem conversava com o outro, todo mundo muito chateado. Lembro de conversar com o Ramiro em campo, aos 35 minutos do segundo tempo. Um a zero para a gente, e como tínhamos ganhado lá, tínhamos essa vantagem. E eu falava: "Vamos, só mais um pouco para estar na final". E pela forma que foi a gente sentiu muito. E este ano temos o privilégio de novo, por tudo que construímos. Novamente, falaram que o Grêmio nem iria para as oitavas. E classificamos. Depois, que não passaríamos contra o Palmeiras. Conseguimos. Agora temos mais uma semifinal. Sem dúvida, guardamos o que passamos ano passado, para que possamos estar mais concentrados.

Entre os quatro, quem está mais preparado?
Os quatro são de alto nível. Os quatro são grandes times e têm chances de conquistar,

O que o torcedor pode esperar do Grêmio?
O que a gente vem fazendo. Honrando a camisa do Grêmio, lutando por eles ali, porque quando eles estão do nosso lado, sem dúvidas somos mais fortes. Eles junto com a gente, lutando até o final, e sem dúvida nossa luta vai ser grande para darmos essa alegria. 

Quanto tempo mais fica no Grêmio?
Olha, por mim ficaria até aposentar. Por tudo que estou vivendo aqui. 
 

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